Contrabando Editorial

Robert Linhart*

Tradução: Leo Vinicios Liberato

 

Entrevista original publicada em 1978 na revista Critique Communiste, sob o titulo Evolution du procès de travail et luttes de classe, sua versão traduzida para o inglês pode ser encontrada aqui.

Critique Communiste: Robert Linhart, você dirigiu a tendência althusseriana dentro da União dos Estudantes Comunistas (UEC), que mais tarde criou a União da Juventude Comunista (Marxista-Leninista) (UJCML).[1] Em maio de 1968, diversas vezes entramos em conflito com a UJCML sob sua liderança. Após a crise da sua organização e da corrente maoísta em geral, você não seguiu o mesmo caminho de um bom número de ex-líderes maoístas reclassificados hoje dentro da Nouvelle Philosophie ou do establishment intelectual acadêmico. Quando a onda antileninista estava no auge, você publicou um livro contracorrente: Lenin, os Camponeses, Taylor.[2] Você acaba de publicar Greve na Fábrica, um relato pessoal que todos nós lemos e apreciamos na Critique Communiste.[3] Em retrospecto, qual é sua avaliação de seu passado militante? Como você entende sua militância agora?

Robert Linhart: O momento crítico do colapso das chamadas organizações “maoístas” pode ser situado por volta de 1972. Em todo caso, ao longo de uma década de sua existência, desde seu nascimento dentro da UEC em diante, nossas organizações sempre existiram em crise. Independente de todas as convulsões externas e pressões contraditórias que emanam da sociedade, elas continham um elemento de crise interna: nossa tentativa de romper com um modo de ação concebido sempre enquanto forma de acumulação primitiva de um capital de militantes. Nós nos apoderamos da Revolução Cultural Chinesa e extraímos dela formas de organização que eram mais contraditórias e instáveis ​​do que aquelas legadas antes pela tradição do movimento comunista. Como marxistas-leninistas, pensamos uma inovação radical em termos de teoria e prática de organização. Buscamos estabelecer um tipo de organização muito mais dialético, capaz de se questionar, de se destruir, de se deslocar de uma base social para outra, de se recompor. Contra a orientação de nossas próprias organizações “marxistas-leninistas” e depois “maoístas”, lançamos “movimentos” que, por sua repetição e magnitude, contribuíram para um crescimento e avanços surpreendentes, e também provocaram crises perpétuas. A crise final ocorreu entre 1971 e 1973.

Com certeza, outras organizações surgiram desde então, que também afirmam o marxismo-leninismo e o pensamento de Mao Tse-Tung. Mas me parece que a situação geral em que conduzem suas ações e a relação que conseguem manter hoje com a revolução chinesa são muito diferentes das que existiam durante as ondas anteriores. Portanto, falarei apenas da geração de militantes marxistas-leninistas em que participei.

No momento dessa crise final, o problema que enfrentamos, uma vez que éramos profissionais da revolução, passando da greve à organização de um “destacamento” fabril, do movimento de soldados à insurreição numa prisão, da organização de uma manifestação à redação de artigos de jornal, pode ser formulado de forma simples: um problema da reintegração na sociedade. Sem dúvida vocês conhecem, tal como eu, as tremendas consequências ​​de indivíduos que operam encerrados num mundo politicamente fechado, onde só conhecem pessoas que têm o mesmo ponto de vista que o seu e onde todas as informações são peneiradas em uma forma totalmente rígida. A interpretação coletiva é quase sempre imediata e a visão do mundo, desprovida de seus mistérios e de seus brilhos complexos, acaba sendo reduzida a uma pobre coleção de estereótipos. Vemos a formação de um comportamento esquizofrênico, a construção de uma França e de um mundo de sonho que só tem conexões distantes com a França e o mundo reais. O mecanismo dessa separação é fácil de desmontar. Para algumas centenas de pessoas, entre 1965 e 1972, a França só foi percebida através de greves, manifestações, incidentes que eclodiram em diferentes pontos da sociedade ou do aparelho de Estado. Essas pessoas não tinham qualquer atividade normal, numa empresa, num escritório, numa comunidade, como as fazemos todos os dias (inclusive dias sem História!). A amostragem da sociedade que conhecemos diretamente não tem valor em termos de representação do todo, pois escolhemos sempre os locais onde as coisas acontecem. E como nunca estamos de uma forma consistente onde as coisas não se movem de forma espetacular, toda uma parte essencial da realidade escapa à percepção, e temos uma visão completamente distorcida da realidade.

Esse problema sempre surgiu e, mais tarde, assumiu um caráter particularmente agudo. Na época em que eu trabalhava na imprensa da GP (Esquerda Proletária). (J’accuse, depois a Cause du peuple-J’Accuse), duas linhas se opuseram vigorosamente. Procurou-se estabelecer uma relação com a realidade que não fosse completamente truncada – ou falsificada: se houve uma manifestação que reuniu apenas 500 pessoas, diga que foram 500 pessoas; se uma greve correu mal, explique por que correu mal. A outra linha, que poderia ser qualificada de voluntarista ou idealista, mas que incluía também as formas mais duvidosas da vontade de poder e do carreirismo da pequena burguesia intelectual, consistia em dizer: representamos o proletariado; se nossos camaradas da base pedem para dizer que eram 10.000 pessoas, é preciso dizer etc. Esse tipo de conflito ocorria com frequência e nos empurrava para um círculo vicioso: as pressões voluntaristas nos isolavam daqueles que chamávamos de “democratas” ou de pessoas com quem podíamos estar em contato, o que reduzia ainda mais a nossa capacidade de apreciação da realidade.

Gostaria de enfatizar um ponto. Descrevo aqui o que experimentei diretamente. Mas, na minha opinião, esse é um fenômeno generalizado. Embora certas organizações ditas “maoistas” levaram essa capacidade esquizofrênica a um grau muito elevado, me parece que se trata de uma característica de todas as organizações de extrema-esquerda. Outros camaradas, sem dúvida, não agem de forma tão patológica, mas é óbvio pela leitura dos seus jornais, ou ouvindo a interpretação que dão dos acontecimentos, que toda a realidade social está reduzida a um enquadramento muito tosco, onde existem apenas algumas variações e onde quase sempre se pode prever antecipadamente o que será dito sobre isso ou aquilo. Isso é o que torna a leitura da imprensa de extrema-esquerda uma tristeza absoluta. Além disso, frequentemente militantes de extrema-esquerda imaginam que aderir à realidade é aceitá-la na forma institucional em que a nossa sociedade produz “notícias” (pontos apresentados e construídos pela grande imprensa e outros veículos jornalísticos, ou até pela “vida política”, como podemos ver hoje em dia com “aniversários” e outras idiotices…). Ao curvarem-se a essa superestrutura artificial, na maioria das vezes deixam de explorar áreas da realidade que praticamente nunca aparecem nas notícias (já que as notícias são um sistema rigorosamente limitado de representação que a sociedade faz de si mesma). Existe, em última análise, uma curiosa conjunção de “esquizofrenia” e conformismo que, creio, pode ser muito bem analisada. Esse mecanismo, que conhecemos patologicamente, continua a existir de um modo que poderia ser descrito como mais rotineiro, mais normal…

Esses problemas de percepção do mundo e de reintegração na sociedade já nos eram colocados há muito tempo, inclusive durante a nossa atividade como revolucionários profissionais. Sempre podemos nos esquivar, até chegar o momento em que a organização se desfaz e todos se encontram em apuros. Gostem ou não, terão de estabelecer uma relação “normal” com a sociedade. Nem sempre, para ser honesto. É uma questão de mentalidade, não apenas de profissão e de atividade social. E certos indivíduos bem colocados encontraram uma fuga ao custo (aparentemente baixo para eles) de uma espetacular virada de casaca. No fundo, os mestres oradores e outros tagarelas da nouvelle philosophie continuam a explorar as boas e velhas fórmulas: jorrando qualquer elucubração a partir de fragmentos de realidade que são reduzidos a um quadro elementar antes de serem incorporados a uma fantasia com temas delirantes próprios. É bem artificial (por estar longe de ser uma loucura…). Mas essas pessoas que fazem muito barulho e provocam muito vento são apenas um punhado. A grande massa de militantes se espalhou em muitas direções.

A partir de 1972, as estratégias das pessoas que participaram do nosso movimento de repente tornaram-se estratégias individuais novamente. Todos tentaram encontrar uma saída e houve muitas abordagens diferentes. Alguns demonstraram pânico, medo da vida comum, de encontrar um emprego estável, de ter obrigações profissionais. Encontraram mil e uma razões para continuar de outra forma o estilo de vida do militante livre de constrangimentos sociais comuns, mas ligado a algo central, de ordem cultural ou intelectual – tudo para não mergulhar no destino da maioria dos 53 milhões de franceses.

Outros investiram as capacidades que conseguiram adquirir durante o seu período militante em vários setores: campanha, publicidade, pesquisa, jornalismo, psicanálise etc.

Outros tentaram, por seu lado, encontrar continuidade na ação, apesar da mudança repentina das condições. Ao mesmo tempo encontrar uma profissão, uma relação normal com a sociedade, restabelecer um diálogo com pessoas que pensam e vivem de forma diferente, mas continuar, nesse universo mudado, a lutar pela mesma coisa: o nascimento de forças políticas ligadas à classe trabalhadora, a resistência à opressão capitalista e imperialista, a luta contra a exploração. Alguns tornaram-se advogados e continuaram a defender os trabalhadores, especializando-se em questões de direito trabalhista. Outros se vincularam a sindicatos. Outros até permaneceram no chão de fábrica e, por assim dizer, “naturalizaram-se” como operários.

Passamos por um período muito difícil e acho que foi muito útil para deixar a poeira baixar. Os ambiciosos que apostaram, há dez ou quinze anos, no rápido sucesso revolucionário para encontrar um lugar ao sol, não resistiram ao retrocesso dos anos 70. Suas renúncias se multiplicaram, enquanto atiravam-se nos braços da burguesia. Boa viagem. Os outros, a grande maioria, tenho certeza, um dia se encontrarão na luta novamente, com convicção mais forte e experiência mais ampla.

Da minha parte, decidi ser professor e economista, e dedicar todo o meu trabalho de enquete, escrita, pesquisa e ensino aos problemas atuais do trabalho produtivo – isto é, essencialmente tudo o que diz respeito ao funcionamento da produção industrial e agrícola. Como se produzem hoje o aço, a nafta, os automóveis, os rádios, os tecidos, o milho, a cortiça, a vitela tratada com hormônios, os pratos etc. etc.

Na base dessas escolhas, existe uma ideia simples. Parece-me que temos um conhecimento muito superficial e muito distante da classe trabalhadora e da produção. Mais de cem anos depois de O Capital, continua a ser um mundo amplamente inexplorado, à espera de ser descoberto.

E muitas vezes ficamos com as ideias, as definições, as descrições produzidas naquele momento, no momento do nascimento do marxismo e do seu encontro com o movimento operário. Mas o mundo mudou desde a época de Marx. E se é verdade, como diz Marx, que as relações de produção são o coração da sociedade, do sistema de exploração, me parece que hoje é difícil formar uma opinião sobre qualquer coisa (ideologia, Estado, superestruturas, relações internacionais, tendências gerais das sociedades etc.), se não procurarmos conhecimentos relativamente concretos (e atualizados) das relações de produção – da forma real como os homens produzem objetos.

Faço isso principalmente com um método que experimento há bastante tempo (desde 1964), o da enquete, em diversas formas. Penso que é essencial manter e aprofundar uma relação direta com o mundo real da produção, e que nenhuma leitura ou documentação pode ser suficiente para fornecer o mínimo de conhecimento adequado. Meus trabalhos mais recentes são uma enquete sobre as transferências de tecnologia na Argélia em 1974, a participação na reforma agrária no sul de Portugal em 1975 (onde trabalhei durante algum tempo com as equipes dos Conselhos Regionais de Reforma Agrária que ajudaram na expropriação de “latifundiários” e na formação de unidades de produção coletivas geridas por trabalhadores agrícolas), e o estabelecimento, em ligação com as organizações sindicais francesas, de enquetes e cursos sobre organização do trabalho, destinados a trabalhadores (nomeadamente das indústrias automobilística, petroquímica e de cimento). Além disso, leciono na Universidade de Vincennes e, de forma intermitente, para funcionários do INSEE.[4]Espero que essas poucas indicações políticas e profissionais sobre a minha atividade atual respondam mais ou menos a sua pergunta.

CC: No que diz respeito a essas questões do processo produtivo, ocorreram mudanças muito importantes nos últimos dez anos – mudanças muitas vezes desconhecidas, subvalorizadas, mal compreendidas. Você pode delinear os pontos principais aqui?

RL: Gostaria de me concentrar primeiro num ponto que você levanta e que de fato me parece importante: a dificuldade de conhecer essas mudanças e, de forma mais geral, a dificuldade de conhecer o processo produtivo. Pode parecer bastante estranho, mas se supormos que alguém gostaria de fornecer a um público interessado (estudantes, por exemplo) material sobre a forma como produzimos na França, por exemplo, os tecidos (a dimensão das produções e das unidades de produção, o processo de produção em si, a repartição do trabalho, a organização do trabalho entre as diferentes empresas e dentro de cada uma, a descrição das máquinas e dos gestos…) não terá sucesso. Eu mesmo tive esse problema e só consegui resolvê-lo de maneira muito imperfeita. É praticamente impossível encontrar trabalhos simples, descritivos e (insisto neste ponto) abrangentes sobre os principais ramos da produção, sobre o processo completo pelo qual passamos da matéria-prima ao objeto acabado.

Obviamente, existe uma enorme literatura sobre a “sociologia do trabalho”, mas ainda falta essa análise global do processo de produção (sem dúvida porque se supõe que ela se enquadra em outras disciplinas: economia, tecnologia… Mas os economistas não levam em conta a realidade concreta dos processos de produção e os estudos tecnológicos são demasiado especializados e compartimentados para fornecer uma visão global).

O que acontece é que os pesquisadores destacam um certo número de postos de trabalho, ou situações de trabalho, muito típicos, sobre os quais acumulamos descrições, análises, raciocínios, em detrimento da percepção e de uma análise global da força de trabalho que contribui para uma produção específica. Vejamos um exemplo da indústria siderúrgica. Destaca-se as mudanças ocorridas no trabalho. Fala-se assim do trabalho do “laminador”. No passado, as barras de metal fundido eram recolhidas manualmente, com pinças. Depois foi automatizado.

Hoje está tudo informatizado. Houve três gerações de laminadores etc. Bem. Hoje, um laminador é um trabalhador que administra uma estação de controle, geralmente em turnos 3 x 8, que controla uma enorme instalação e que tem um trabalho em grande parte intelectual – ou pelo menos um trabalho que não se baseia em esforço físico. Por outro lado, enfatizaremos, com razão, o esforço mental, o desgaste e a perturbação provocados pelo trabalho por turnos etc. Mas assim que sugerimos que essa é a evolução global do trabalho operário, e que as “velhas” formas de produção baseadas na hiperexploração do esforço físico e no controle direto dos movimentos tendem a desaparecer nas indústrias mais modernas, ficamos desligados da realidade do processo de trabalho, que continua muito mais complexo e desigual do que muitas vezes imaginamos. No entanto, encontraremos numerosos estudos, por exemplo, sobre o trabalho por turnos do laminador ou sobre o trabalho por turnos do operador na petroquímica, ou sobre um certo número de trabalhos manuais particularmente típicos. Mas o amontoado de estudos sobre esse tipo de casos tem um lado irrisório quando não tomamos o cuidado preliminar de verificar de que forma a recomposição do processo produtivo produziu outros tipos de trabalhadores, muitas vezes relegados a tarefas de carregar e descarregar, outros tipos de operários, de empresas, de satélites de grandes indústrias, outros tipos de concentração de força de trabalho (locais de construção, zonas industriais, zonas industrial-portuárias, canteiros de obras gigantes etc.).

Não podemos evitar esse ponto de vista global se quisermos perceber as mudanças que realmente ocorreram no trabalho operário. Muitas vezes, as tarefas físicas que foram retiradas de um, foram repassadas sub-repticiamente para outro, mas na semiobscuridade dos acordos de terceirização ou dos contratos de gestão. Os enormes rolos de laminação não se desmontam sozinhos, as gigantescas cubas e colunas de destilação não se limpam por uma operação do Espírito Santo. A fábrica feita de botões sobre a qual tanto ouvimos falar é apenas uma ilusão, a ponta de um iceberg. Para compreender realmente o processo produtivo, devemos entrar na totalidade de todas as empresas, de todas as pessoas, de todas as comunidades trabalhadoras que participam na produção de um produto ou de um conjunto de produtos. Descobrimos então um sistema produtivo cada vez mais complexo, com as suas ramificações, terceirização nacional, terceirização internacional, trabalho por conta própria; trabalho temporário, interpenetração de empresas, de capital, de unidades de produção. Descobrimos que é cada vez mais difícil rastrear um produto e delimitar os limites de uma produção específica. Esse é o primeiro e significativo obstáculo. Antes mesmo de dizer: “Aqui vamos estudar as transformações ocorridas na petroquímica, na siderurgia ou na produção de alumínio”, devemos tentar delimitar o que isso representa como campo concreto de investigação. Caso contrário acharemos que basta pegar a lista dos cargos da Sacilor para saber como se produz o aço.[5] O que é completamente falso. Existem muitas outras empresas que participam na produção de aço: AVS (“Ao seu serviço”), SOMAFER, SKF, SPIE Batignolle, grandes e pequenas empresas, empresas especializadas, empresas de trabalhadores, empresas não classificadas como siderúrgicas, mas como mecânica, de construção, de caldeiraria, de eletricidade, de transportes, de aluguel de mão-de-obra, de engenharia etc. Dezenas e dezenas de empresas.

Portanto, a primeira dificuldade está aí. Isso se deve à natureza cada vez mais complexa do processo de produção. Além disso, para ser rigoroso, seria necessário levar em conta todas as operações de produção, serviços e engenharia realizadas no exterior. Por exemplo, se quisermos examinar um império petrolífero, teremos obviamente de incorporar um vasto sistema de transportes.

Eventos recentes acabam de mostrar um fragmento dessa realidade, o transporte de petróleo por frotas de conveniência. Os donos desses navios afretam cargas de grandes empresas multinacionais, utilizam barcos tão desgastados que às vezes podem ser descritos como “favelas flutuantes” e onde trabalham subproletários recrutados no Terceiro Mundo, em condições terríveis e com contratos draconianos. Aqui temos verdadeiros traficantes de escravos que subcontratam o transporte da Shell, como acaba de ser evidenciado pelo desastre de Amoco-Cádiz.[6] Isso também se aplica à Exxon, BP, ou às frotas de transportadores de minério, e a todos os outros tipos de transportes. Como houve um desastre, os jornais falaram um pouco sobre isso no caso da Shell. Quando não há desastre, ninguém fala sobre isso. O que significa que, em geral, as pessoas mantêm uma visão mitológica: a Shell é uma grande empresa, com uma aristocracia operária etc. Mas os infelizes marinheiros de Hong Kong, Formosa ou Singapura, que são arrastados em imensas tumbas flutuantes com cargas de 200.000 ou 500.000 toneladas de petróleo, contribuem tanto para a formação dos lucros da Shell quanto os trabalhadores imigrantes que mantêm instalações de refinamento em condições muito duras, e muitos outros que nunca se menciona quando há visitação pública numa refinaria ou em descrições sobre o trabalho nas brochuras da indústria petrolífera. Porém, todo esse sistema é extremamente desenvolvido, tanto para transporte, quanto para limpeza, manutenção, fabricação de derivados etc.

Há uma segunda dificuldade. Isso porque o mundo da produção, mesmo supondo que tenhamos conseguido delimitar o objeto de estudo de forma mais ou menos adequada, não pode ser penetrado com muita facilidade. Aqueles que têm o conhecimento mais direto sobre ele são as pessoas que estão envolvidas nele. De um lado os capitalistas, do outro os trabalhadores. E depois todos aqueles que contribuem para a produção: engenheiros de produção, gestores etc. Todas essas pessoas têm relação direta com a produção. A direção da Sacilor sabe aproximadamente como se produz o aço, sabe definir a sua estratégia, sabe os cargos que vão reorganizar, as funções que vão “sair” da empresa e terceirizar, as mudanças na política de pessoal ou de fornecimento, ou o ritmo de produção. Ela sabe de onde vieram e para onde vão. Confronta a Usinor etc.[7] Mas, como você sabe, é um mundo extremamente fechado. O CNPF,[8] os patrões, as siderúrgicas, os mestres das forjas[9] têm uma sólida reputação de discrição. Por exemplo, existe um controle global por parte dos patrões siderúrgicos sobre os sindicalistas, através de um sistema de arquivos policiais, de conjuntos de informações e de uma análise muito atenta da evolução da mentalidade da força de trabalho. Claro, tudo isso é feito a portas fechadas.

A informação circula entre os patrões e os escalões superiores da gestão. Os patrões viajam, visitam, estudam o que se faz nos Estados Unidos, no Japão ou nos países escandinavos. Eles se mantêm informados. Detalham as dificuldades ou bloqueios da Volvo ou os sucessos da Toyota. Mas tudo isso permanece, como sistema coerente, no domínio exclusivo dos patrões. De vez em quando vislumbramos como isso é aplicado em algum momento e aprendemos por acaso sobre uma inovação que é fruto dessas trocas de experiências. Por exemplo, na Radiotechnique de Rambouillet (parte da Philips), um chefe regressou do Japão entusiasmado com uma prática local: dar distintivos aos chamados trabalhadores “de qualidade”, aqueles que cometem uma percentagem de erros inferior a um determinado limite e que atingem determinadas taxas. Essa empresa fabrica rádios, com pessoal predominantemente feminino e com tarefas estritamente taylorizadas. Os trabalhadores têm de inserir fichas em circuitos impressos de Taiwan ou de outro lugar. A princípio, o limite mínimo de erros é de três erros por dez mil operações, o que exige um esforço visual extraordinário. Agora, os trabalhadores que não excedem os três erros têm, portanto, um distintivo e um pequeno bônus. É uma forma de fazer os trabalhadores competirem entre si. Naturalmente, não se encontrará um estudo publicado que explique que essa empresa decidiu aplicar métodos japoneses. Existe, portanto, um conjunto de análises e informações que circulam entre os patrões, os quais os trabalhadores percebem apenas os efeitos da aplicação, e os quais quem está de fora só pode tomar conhecimento se entrar em contato com pessoas que trabalham na empresa.

Portanto, os capitalistas estudam os processos de produção e trocam conhecimentos entre si, mas isso dificilmente sai desse meio, exceto na forma de aplicações práticas.

E há outra grande categoria de pessoas que conhecem os processos de produção: os trabalhadores. Seu conhecimento é naturalmente muito mais profundo (se colocássemos 500 engenheiros da Philips na produção na Radiotechnique, isso não resultaria em nada, pelo menos não em aparelhos de rádio!), mas ao mesmo tempo é mais fragmentado. Os trabalhadores estão confinados a um trabalho sem saber o que está acontecendo em outro lugar. Quase sempre os patrões podem dizer a esse ou àquele grupo de trabalhadores que o seu caso é “uma exceção”. É muito difícil para os trabalhadores recomporem todo o processo de produção. Além disso, dificilmente se tem tempo para isso quando se tem que trabalhar oito ou dez horas por dia. Há um potencial gigantesco de conhecimento que está praticamente inexplorado, sem aproveitamento. Claro que existem organizações sindicais. Mas quando os sindicalistas se reúnem, têm tantos problemas para resolver que geralmente não encontram tempo para tratar essa questão de forma sistemática. Sobre esse assunto, é preciso insistir no fato de que, desde 1968, os patrões cada vez mais envolvem os sindicalistas em mecanismos de negociação, em comissões, em consultas, em treinamentos etc., que consomem a maior parte do seu tempo, como o tempo de serviço ou os horários liberados de delegação. Essa absorção do tempo dos sindicalistas levada a cabo pelos empregadores, uma forma sutil de usura, significa que, não por má vontade, muitas vezes eles têm dificuldade em descrever de forma concreta o que se passa nas empresas. Do lado sindical, não há, portanto, um desenvolvimento sistemático dos campos de conhecimento sobre o processo produtivo. A desigualdade da representação sindical constitui um obstáculo adicional à formação de uma visão global.

Se aceitarmos que as pessoas que estão no processo de produção se abstêm, por uma razão ou outra, de comunicar sistematicamente informações sobre a produção ao mundo exterior, ou apenas comunicam fragmentos dela, de onde então essa informação pode vir? Sei muito bem que tudo isso não impede que os acadêmicos e aqueles que chamamos de pesquisadores produzam uma montanha de textos sobre trabalho, produção, indústrias. Mas facilmente percebemos que existe aí um processo cumulativo, que se alimenta de acordo com as necessidades profissionais. Todo mundo escreve primeiro sobre o que os outros escreveram, e os livros essencialmente devoram e transformam livros, e não experiências e conhecimentos diretos. De modo que há uma desproporção gigantesca entre o volume de obras que são impressas e a modesta quantidade de informação concreta que circula.

Em suma, se você quer entender alguma coisa, acho que não há outro caminho senão ir e ver por si mesmo e verificar pacientemente o conhecimento mais direto possível. Vá conhecer os locais de produção, converse com trabalhadores, empresários, engenheiros, trabalhe quando possível junto com os trabalhadores, até participe diretamente da produção. Esse trabalho paciente para compreender a realidade da forma mais concreta possível é o que chamo de “fazer enquetes”.

Gostaria de fazer uma última observação sobre a urgência desse método. Parece-me que estamos entrando num período em que a ocultação das realidades da produção pela propaganda e pelo sistema de “informação” da burguesia tem características mais sutis do que no passado e, portanto, mais eficaz, mais perigosa. Há vários anos que os patrões têm caminhado para uma política de “abertura” e “imagem de marca”.

Há cerca de quinze anos, as fábricas eram um mundo fechado e era preciso buscar depoimentos. Hoje, eles fingem estar abertos até certo ponto. Os patrões foram gradativamente concluindo que é mais interessante trazer delegações ou grupos, e mostrar coisas selecionadas, do que impor um muro de silêncio.

Portanto, assistimos ao desenvolvimento de uma política sistemática de visitas às fábricas, de filmes publicitários mais ou menos abertos (por vezes difundidos sob o pretexto de jornalismo, por exemplo na televisão), de exposições e de diversos meios de imagem que, por exemplo, alimentam hoje a campanha da Stoleru de “revalorização do trabalho manual”.[10] É uma estratégia deliberada que, longe de pôr fim ao absolutismo, ou ao totalitarismo interno da empresa, apenas o aperfeiçoa. Na França, o arquipélago Citroën é um universo totalitário, policial, onde a apresentação das coisas, quando dirigida para o exterior, é sistematicamente enquadrada e orientada por uma propaganda grosseiramente enganosa. O CNPF também publicou, para uso exclusivo dos patrões, um folheto sobre visitas às fábricas. Explica como organizar as visitas, como compô-las, como receber os visitantes e como produzir o efeito desejado, a “boa imagem”. É muito detalhado, até sobre o ritmo da caminhada e o melhor tipo de circuito. Detalhe divertido: é importante que o percurso para chegar à fábrica esteja perfeitamente demarcado. Caso contrário, é dito, os visitantes arriscariam “vagar” pelas ruas “Maurice-Thorez” ou “Henri-Barbusse” dos subúrbios inóspitos, o que não deixaria de os incomodar…

Portanto, talvez estejamos caminhando para métodos mais inteligentes de obscurecer o processo de trabalho, que permitirão aos patrões “mostrar” o interior das fábricas. Porém nem todos. Hoje, por exemplo, não podemos visitar a Renault-Billancourt, mas podemos visitar a Renault-Flins. É verdade que visitamos em ritmo acelerado e que é impossível perceber a cadência de uma linha quando atravessamos uma oficina em dois minutos. Além disso, não mostram as oficinas das grandes prensas, as fundições, as salas de pintura… Mas sobretudo, para muitas indústrias, mostrar a grande empresa central é dar uma visão truncada do emaranhado de trabalho que leva ao produto final. Mostra-se uma sala de controle de uma refinaria, mas nunca se leva os visitantes para conhecer as pequenas empresas subcontratadas, a gestão e comércio de semi-escravos que, por vezes, fornecem milhares de pessoas à empresa. Muito recentemente ocorreu um grave acidente na fábrica Rhône-Poulenc em Pont-de-Claix: as quatro vítimas eram imigrantes, trabalhadores temporários. Essa é uma das formas pelas quais a sinistralidade das grandes indústrias é artificialmente reduzida nas estatísticas: as pessoas que trabalham manualmente na estrutura são cada vez menos empregadas diretamente pela empresa, mas por subcontratadas. Os acidentes que as afetam aparecerão dispersos em diversas empresas de transporte, construção, caldeiraria e metalurgia.

É muito importante ter tudo isso em mente para entender que hoje ninguém pode dizer de fato: “Aqui vou explicar a vocês o trabalho e o processo de produção na indústria siderúrgica, automobilística, têxtil…” É muito difícil. Temos que tatear.  Muitas vezes seguimos caminhos tortuosos.

Não digo isso para fugir da sua pergunta, mas para tentar mostrar os limites e lacunas que qualquer resposta acarreta. Feitas essas reservas, me parece que assistimos em geral, com muitas desigualdades e formas complexas, a uma tendência que teve origem inicialmente nas indústrias de processo…

CC: O que você quer dizer?

RL: Nos séculos XVIII e XIX, quando um objeto era produzido em escala industrial, o homem tinha que pegar a matéria-prima, trabalhá-la diretamente e produzir um objeto que passasse descontinuamente pelas diferentes etapas da divisão do trabalho. Com o desenvolvimento da química, da química orgânica, da petroquímica e da siderurgia, nos deparamos com unidades de produção que já não correspondem a esse padrão, originados do artesanato e dos antigos ofícios. Esse novo tipo de unidades de produção são a expansão para a escala real dos setores que foram criados em laboratório. O que é uma unidade química? É a reprodução, em escala industrial, de retortas, tubos de ensaio, misturas: a reação é a mesma, mas passamos de algumas gramas a milhares de toneladas. Quando as experiências químicas em laboratório se revelam conclusivas, passamos à construção e montagem de instalações industriais.

O que isso significará em termos de trabalho? Dois tipos de trabalho. Em primeiro lugar, um trabalho de controle e vigilância, através do qual se conduz e se acompanha, à escala industrial, os mesmos processos vistos em laboratório. Depois, trabalhos de manutenção no próprio complexo industrial, composto por torres, tanques, tubulações, válvulas, redes elétricas, infraestruturas metálicas etc. Às vezes nos esquecemos, mas é óbvio que a mão humana nunca está ausente numa instalação automatizada. Ambos os tipos de trabalho são igualmente essenciais.

A política laboral dos patrões é muito diferente para esses dois tipos de trabalho. Há uma tendência crescente de “tirar” da empresa tudo o que não seja atividade de controle: sempre a limpeza, quase sempre o transporte, muitas vezes a manutenção e a expedição. Vimos até algumas tentativas por parte dos empregadores de “tirar tudo”, ou seja, de colocar trabalhadores temporários na produção. Mas houve uma resistência sindical extremamente forte e as tentativas não deram em nada.

Os patrões afirmam que a divisão desses dois tipos de empregos (emprego direto na empresa para o “processo de manufatura”, isto é, controle; terceirização para o resto) tem a sua origem nas restrições tecnológicas. Isso é falso. O trabalho de manutenção pode ser planejado e as irregularidades podem ser amortecidas com um emprego estável.

Do ponto de vista estratégico da luta de classes, isso obviamente ofereceria muito menos vantagens aos patrões. Mas nada nos impede de conceber “reservatórios” de manutenção, limpeza e transporte que funcionem de forma flexível, mas que sejam compostos por pessoal permanente da empresa da mesma forma que o resto do pessoal. Além disso, em outros sistemas de produção social, todas essas tarefas cabem ao pessoal normal da refinaria. Esse é um dos problemas da transferência de tecnologia entre a Itália e a Polónia. Por exemplo: quando a Itália vende à Polónia uma refinaria pronta para ser usada, pode ser difícil replicar a mão-de-obra e a produtividade, uma vez que o pessoal polonês da refinaria executa diretamente todas as tarefas terceirizadas pelos patrões italianos.

Nos nossos países, a política capitalista em relação a esses dois tipos de trabalhadores é muito diferente, e os patrões se esforçam em consolidar essa diferenciação, jogando com as divisões dentro da classe trabalhadora. No que diz respeito à classe trabalhadora central (o pessoal permanente da siderúrgica Sacilor ou da refinaria Shell) a estratégia capitalista visa principalmente uma certa forma de integração. Isso não significa que os patrões não entrem em conflito com a classe trabalhadora e os sindicatos. Os trabalhadores da indústria de transformação enfrentam por vezes duras lutas. Mas ainda existe uma política patronal que visa associar, em certa medida, o coletivo de trabalhadores estáveis ​​às responsabilidades da empresa. Desse ponto de vista há um enorme esforço ideológico que não deixa de ter resultados. Nas refinarias, ouvimos frequentemente falar do “ofício de refinador”, num sentido estrito. “Somos refinadores”; ouve-se o CEO insinuar ao trabalhador na sala de controle, “não somos transportadores nem varredores, é normal que terceirizemos isso”. Da mesma forma, se diz numa fábrica de cimento: “somos cimenteiros”, na siderurgia: “somos siderúrgicos…” etc. Não é raro que estas expressões utilizadas pela gestão para justificar todo o desmantelamento sejam assumidas e internalizadas pelos trabalhadores.

O problema é que já não sabemos realmente, nessas indústrias de processo, o que significa “produzir”. Vejamos um exemplo. Uma unidade com capacidade de 100 mil toneladas de etileno. Por um motivo ou outro (falta de mercado) essa unidade produz apenas 50 mil toneladas de etileno. Um belo dia, alguém diz: “temos que ir para 100 mil toneladas”. Os caras giram vários botões e, de uma hora para outra, a produção aumenta para 100 mil toneladas. Obviamente, na indústria automobilística isso não seria possível. O fato de já não existir uma relação direta entre os gestos e o volume de produção cria uma relação particular com a produção, diferente daquela que existe nas indústrias tradicionais. Claro, existem tarefas de manutenção, que são mais proporcionais às dimensões. Mas precisamente o fato de “tirar” essas atividades da empresa amplia ainda mais a distância entre o volume de produção e as ocupações da força de trabalho. Muitos trabalhos complicados e fisicamente cansativos são terceirizados. Se quisermos compreender a relação, que permanece sempre estreita, entre a força de trabalho e o volume de produção, devemos, portanto, levar em conta o todo.

Falei de integração, em relação à classe trabalhadora “central” dessas indústrias. Você não deve imaginar que é fácil. As pessoas continuam a defender os seus interesses, que não são os do patrão. Um dos grandes problemas do trabalho de controle, por exemplo, é que ele é feito em turnos, o que chamamos de turnos 3 x 8. Trabalham em três turnos diferentes e constantemente modificados, e sabemos que isso gera terríveis problemas neurológicos e fisiológicos, pois o organismo é incapaz de se adaptar às mudanças incessantes nos horários de dormir e de comer (úlcera estomacal é a doença dos “turnos”). Isso fermenta o descontentamento e, muito recentemente, ocorreram grandes movimentos de greve nas indústrias de transformação contra o trabalho por turnos. Essa é uma das razões pelas quais se realizam estudos em alguns lugares para ver como acabar com o trabalho por turnos dentro de vinte ou trinta anos.

No momento, os empregadores afirmam que o trabalho contínuo 24 horas por dia é, nessas indústrias, uma necessidade tecnológica. Existem, portanto, conflitos e numerosos pontos de confronto (sobre salários, diferenciais de pagamento, carreiras, elementos de qualificação, segurança etc.), e não podemos definir essa classe trabalhadora “central” como uma aristocracia operária completamente integrada, apesar de certas características da sua ideologia (“ofício de refinador”, “ofício de metalúrgico”…). Mas há um ponto em que apresenta certos aspectos da “aristocracia operária”: assume muito pouca responsabilidade pelos interesses das outras frações da classe trabalhadora incorporadas no mesmo processo de produção, os cacos terceirizados e temporários das pequenas empresas subcontratadas. Mas é aqui que encontramos os setores mais desfavorecidos e explorados da classe trabalhadora – imigrantes, mulheres, estudantes forçados a trabalhar. Os trabalhos mais perigosos e a repressão mais forte estão aí. Muitas vezes, não há possibilidade de sindicalização e as condições de trabalho parecem vir diretamente do século XIX. A única força que poderia atualmente defender eficazmente os interesses dessas camadas é a classe trabalhadora central, que tem os meios para parar a produção e impor novas regras. No entanto, em geral, se constata que a classe trabalhadora central quase não leva em conta essas categorias “periféricas”. Na maioria das vezes, os trabalhadores “centrais” nem sabem o que se passa com os terceirizados no seu próprio local de trabalho. Para eles, é apenas outro tipo de trabalhado, feito por outro tipo de trabalhadores (muitas vezes imigrantes). É difícil fazer um levantamento exato, para saber quem os emprega. Faz-se uma grande operação de limpeza ou de manutenção. Chegam 400 pessoas, incluindo 350 trabalhadores temporários. Eles ficam lá por um mês e depois desaparecem. O que é feito deles? Ninguém sabe…

O que é muito preocupante é que essa política sistemática nas indústrias de transformação tende a se estender a todos os ramos da produção industrial. Essa gestão diferenciada da classe trabalhadora apresenta vantagens para os empregadores, de modo que agora a vemos se desenvolver em indústrias onde já não pode sequer ser justificada por argumentos tecnológicos. Na têxtil, na automobilística etc., se faz o mesmo. O exemplo japonês mostra o caminho: a classe trabalhadora central incorporada num intenso sistema paternalista está em evidência. Em torno dela, uma teia de terceirizados, imigrantes coreanos e outros, que participam da produção, mas sem existirem socialmente. Além disso, é o desenvolvimento excepcional desse sistema no Japão que explica em grande parte os números recordes de produtividade que tanto fascinam os patrões ocidentais. A Toyota parece empregar metade das pessoas que a Renault para o mesmo número de carros. Mas, na verdade, se contarmos todos e incluirmos o sistema de terceirização, os números da produtividade são muito mais comparáveis. Devemos ter cuidado com certas visões milagrosas do Japão que se baseiam nessa espécie de prestidigitação.

A experiência das indústrias de transformação, os exemplos estrangeiros como o Japão, o endurecimento da política governamental em relação aos imigrantes e aos trabalhadores temporários, são todos elementos que encorajam os patrões a se empenharem numa política de divisão estrutural entre uma classe trabalhadora relativamente estável, com a qual tentam chegar a termos (criação de “carreiras”, negociações com os sindicatos) e toda uma população para quem o argumento essencial continua a ser a demissão, o porrete e a expulsão quando se trata de imigrantes. Exemplos dessa política são abundantes. Na indústria têxtil, a terceirização tem se expandido enormemente com os seus casos mais extremos: oficinas clandestinas muito pequenas (vinte iugoslavos ou turcos sem documentos, trabalhando doze horas por dia num porão etc.) que realizam trabalhos por peça para grandes empresas. Mesmo nas grandes empresas públicas (Houillères, EDF, PTT)[11] existe uma política nessa direção. Muito recentemente, ocorreu um grave acidente no centro de Paris, na avenida de Latour-Maubourg. Um grupo de operários trabalhava na instalação de fios telefônicos enterrados, sem nenhuma estrutura de contenção. Um bloco de concreto caiu e dois trabalhadores portugueses morreram. Esses trabalhadores instalaram o telefone: portanto, trabalharam para a PTT. Mas imediatamente a PTT disse: “Não fomos nós, foi uma empresa subcontratada”. Mesmo se imaginarmos que o CEO da empresa em questão seja preso (o que não aconteceu), a PTT não daria a mínima. É óbvio, porém, que o trabalho da PTT envolve a instalação de fios. Da mesma forma, na mineração, terceiriza-se o corte. Há pouco tempo, um trabalhador turco morreu numa mina, esmagado por um bloco de carvão. Era empregado de uma empresa terceirizada, não era considerado mineiro. No entanto, o que poderia ser considerado mais trabalho de mineiro do que retirar carvão da parede da mina?

É assim que o patronato consegue acabar com as conquistas de frações inteiras da classe trabalhadora. A mesma coisa aconteceu na Renault. Começaram a terceirizar o trabalho de estofamento. O que as mulheres empregadas nas oficinas de estofamento fazem? Elas fazem trabalho de costura. Por que não fazer com que sejam confeccionadas por pequenas empresas de costura da região? É o que está acontecendo em Sandouville. Resultado imediato: as moças que farão capas para assentos dos carros perdem os benefícios da Renault e poderão receber o SMIC, ou salário mínimo.[12] Esse tipo de coisa pode chegar muito longe. Podemos terceirizar muitas coisas, desmantelar completamente fábricas e oficinas. Na Itália, isso parece ser sistemático.

Portanto, vemos a política de gestão diferenciada de duas frações principais da classe trabalhadora se desenvolvendo muito além do tipo de produção que parecia mais adequado por razões tecnológicas. Se formos rigorosos, temos de ter em conta o fato de que, na lógica patronal, isso não acontece apenas dentro das fronteiras nacionais. Assim como você pode instalar máquinas de costura em casa, você pode fazer camisetas em Hong Kong. Quando a alta gestão tem todos os elementos em mãos, escolhe o sistema mais vantajoso numa escala que pode ser global. Trata-se de um sistema em cascata composto por interpretação, trocas, acordos de terceirização, e pelo qual parte da produção é feita no exterior.

Em suma, a produção de um produto francês envolve muitas vezes os trabalhadores da grande empresa central, todos os trabalhadores periféricos da própria França, muito menos conhecidos, e todo um conjunto de indústrias espalhadas pelo Terceiro Mundo, operando com condições de trabalho ainda mais terríveis. É o caso em Marrocos, Tunísia, Singapura etc. Há toda possibilidade de se desenvolver em outros países do Terceiro Mundo, cujos governos querem atrair fábricas de montagem ou de vestuário que consomem mão-de-obra barata. O Egito tem um projeto de tornar a zona do Canal de Suez uma zona franca para esse fim.

Quando quisermos ter uma ideia da quantidade total de trabalho que realmente contribui para a produção de mais-valia num determinado produto, devemos levar tudo isso em conta. É toda esta teia de relações que define as formas atuais de organização da produção capitalista.

Duas observações

A primeira sobre os termos “classe trabalhadora central” e “classe trabalhadora periférica”. Utilizo-os por conveniência, embora em muitos casos a classe trabalhadora “periférica” seja a maioria. Na realidade, existe uma diversidade bastante grande de situações concretas. O núcleo estável está longe de ter o mesmo status em todos os lugares. Quanto à terceirização, baseia-se na concorrência capitalista entre todas as pequenas empresas que se apresentam para trabalhar para uma grande empresa. Quanto mais difícil for a situação para as PME (pequenas e médias empresas), mas a grande empresa exercerá pressão sobre o mercado. O que vai acontecer nas PME? Poderia se tornar uma empregadora de trabalho semi-escravo, especializada em imigrantes ilegais e em mão-de-obra traficada. Situação trágica de repressão pura e simples, por vezes organizada em ligação com o sistema de recrutamento da grande empresa. Em 1971, quando um homem negro se candidatou a emprego em Berliet, disseram a ele: “Não há emprego para você aqui, mas há lugar na Machin, 52 impasse Truc”. Era uma oficina de trabalho semi-escravo e, de fato, no dia seguinte começou a trabalhar para Berliet. Mas com um salário menor, sem quaisquer direitos etc.

Existe uma segunda possibilidade: uma variante do paternalismo adaptada às PME de trabalho qualificado. O patrão convoca seus trinta operários qualificados e diz: “Aqui estamos, a Renault nos ofereceu trabalho como terceirizados. Como não existe outro mercado, temos que aceitar mesmo que tenhamos que trabalhar dez horas por dia e sermos pagos por oito. Se não aceitarmos, afundaremos.” Não é incomum ver trabalhadores aceitarem tal situação em tempos de crise e até mesmo serem representantes de grandes empresas para encontrar mercado. Essa segunda possibilidade leva ao mesmo resultado: obter força de trabalho a um preço baixo.

Portanto, é um sistema de exploração complexo, mas que coincide essencialmente à relação entre PME e grandes empresas. Sobre isso, o governo já anunciou que pretende fazer um grande esforço e que será central na sua política industrial. Esse sistema de relações entre grandes empresas e PME está, sem dúvida, destinado a um grande desenvolvimento porque permite gerir com precisão a divisão da classe trabalhadora através dos chamados mecanismos econômicos. Ninguém acreditará que a Renault é ameaçada de falência devido a um aumento salarial. Por outro lado, os caras da pequena empresa estão sendo instruídos a ceder ou ir à falência. Como poderia uma PME de 150 pessoas terceirizadas da Dassault forçar a Dassault a ceder? É impossível. A menos que, na própria Dassault, os trabalhadores cuidem dos problemas dos terceirizados. No momento não há absolutamente nenhuma indicação disso.

Toda a estrutura dos sindicatos e organizações dos trabalhadores deveria ser revista para recompor suas unidades onde quer que os empregadores estabeleçam essa divisão. Deveria haver unidades sindicais em cada local de trabalho, organizações operando em todas as diferentes empresas etc. No momento, repito, não há nada disso.

A segunda observação é que muitas vezes permanecemos prisioneiros da imagem da fábrica como unidade básica de produção. Porém, atualmente, na minha opinião, a fábrica está desaparecendo como unidade significativa em diversos setores. Já desapareceu em grande parte nas indústrias de processo, onde se fala de local geográfico. Para a petroquímica, para produção contínua, a unidade é o território. Ele se apresenta como uma interligação de inúmeros processos produtivos, inúmeras empresas. Uma das perspectivas para o setor automobilístico é a terceirização de parte da produção para fora do país, em particular, aos países do Leste europeu. Por exemplo, a Iugoslávia é especializada na produção de motores Peugeot. Será criado um complexo industrial que produzirá, digamos, 50.000 motores necessários para os seus automóveis, e revenderá os outros 150.000 através de um acordo de longo prazo, à empresa-mãe, que poderá reduzir gradualmente a sua produção de motores.

Isso cria relações de dependência para o país que aceita esse acordo (uma vez que terá de vender uma parte desproporcional da sua produção), e apresenta a vantagem de uma fonte segura de abastecimento para a empresa-mãe. De modo geral, quanto mais se terceiriza, mais se destroi a fábrica como uma unidade de concentração de trabalhadores nas mãos de um capitalista específico, num local específico de produção.

O que surpreende é que essa evolução, embora visível, seja objeto de tão pouca investigação e análise. Não há dúvida de que existe algum bloqueio ideológico que explique a ignorância geral sobre esse assunto. Na França, é difícil que se reconheça que existem subcategorias da população que funcionam como proletariado subalterno; é difícil que se veja a relação entre a discriminação de idade, sexo, nacionalidade e a própria estrutura do processo de trabalho. No entanto, essa é a realidade. Existe um mercado de trabalho duplo, onde alguns têm capacidade de negociação e outros não, onde alguns têm direitos e outros não. Em última análise, é o Estado quem garante a organização de tudo isso, e mesmo das relações internacionais através da imigração. O sistema global produz continuamente trabalhadores subordinados para ocuparem lugares subordinados no processo de produção.

Que eu saiba, o único país capitalista onde isso é estudado de uma forma mais sistemática é a Inglaterra. Sociólogos e economistas, principalmente de Bristol, realizaram investigações (em conjunto com os sindicatos ou independentemente deles) sobre as indústrias petroquímica, de automóveis, de cimento, realizaram estudos sobre as divisões e modos de segregação da classe trabalhadora na Inglaterra, e como essas divisões atuam nos processos de trabalho. Podemos citar Andrew Friedman, Theo Nichols, Huw Beynon, Peter Armstrong. São marxistas, mas dizem que se nos ativermos ao texto de O Capital e às interpretações esquemáticas que lhe foram posteriormente dadas, não poderemos encontrar uma forma de explicar tudo isso. Se não tentarmos criar novas ferramentas marxistas para explicar isso, continuaremos com uma apreciação demasiado global da realidade e seremos incapazes de explicar o que chamam de micro-realidades da classe trabalhadora. Por exemplo, criticam Braverman, que vê o taylorismo como o único modo de controle e organização do trabalho; tentam definir um jogo mais complexo entre duas estratégias que chamam de “autonomia responsável” e “controle direto”.

CC: Quais são as prováveis ​​implicações políticas dessa evolução do processo de trabalho?

RL: Esse é o grande problema. Mas não podemos tratá-lo considerando apenas esses dois termos. Não existe uma ligação imediata entre as transformações do processo de trabalho e o sistema político. Se quisermos passar ao sistema político, devemos ter em conta todo um conjunto de contradições, dentro da sociedade e à escala internacional (em particular o funcionamento do sistema imperialista nas suas relações com o Terceiro Mundo).

Para a França, devemos ter em conta toda a evolução da sociedade: mecanismos estatais, administração, contradições regionais, formas de dominação cultural. É um erro comum querer inferir diretamente de uma evolução do processo produtivo este ou aquele tipo de representação política. Isso empobrece consideravelmente a análise.

A verdade é que as tendências do processo laboral que acabo de indicar enquadram-se bem na evolução da gestão estatal que temos visto nos últimos dez anos. Digamos que o ponto de viragem foi em 1967-1969, a crise social do regime gaullista e a saída do general. Nessa altura e nos anos seguintes, assistimos ao relativo fracasso de um modo de gestão estatal muito centralizado e autoritário, que se revelou eficaz na resolução de certos problemas, mas que já não permitia controlar certos aspectos complexos da evolução da sociedade.

O sistema gaullista, no seu sentido mais restrito, foi seguido pela criação de uma estrutura mais refinada,[13] utilizando centros administrativos, ideológicos, culturais e um governo por divisões, por lobbies, muito mais flexível, baseado na gestão de crises setoriais em benefício de um equilíbrio global favorável aos interesses da burguesia. 1968 foi o ponto alto dessa mudança.

1968? Houve dois fenômenos muito distintos. Um profundo movimento de descontentamento e revolta contra o aumento do desemprego, a estagnação dos salários e a opressão nas fábricas, que levou à imensa greve dos trabalhadores. E um acontecimento pequeno-burguês que desde então tem estado no centro das atenções dos ideólogos e dos grandes meios de comunicação social, e que será ocasião de aniversários grotescos este ano. Mas a explosão estudantil e intelectual foi algo secundário que funcionou efetivamente como uma espécie de sinal por parte de grandes setores da pequena burguesia, dizendo “não queremos mais viver assim”. Isso deu uma aparência de extrema desordem a marcos de mudanças que efetivamente ocorreram posteriormente e modificaram (e aprofundaram) vários aspectos da dominação da burguesia.

No geral, a classe trabalhadora conseguiu muito pouco com o seu movimento. Por outro lado, para a classe média baixa as coisas correram muito melhor. Muitas coisas mudaram na moral, na educação, na política familiar, na vida sexual, na possibilidade de vários tipos de sociólogos e psicólogos exercerem os seus talentos em diferentes esferas ministeriais. Temos assistido a um vasto desenvolvimento da rede social através da medicalização, do “trabalho social”, do planejamento urbano, da educação continuada, da pesquisa etc. Ao mesmo tempo, isso fortaleceu o controle global do sistema sobre a classe trabalhadora e a população produtiva, multiplicou os sinais de alerta e as áreas de intervenção para a “profilaxia social” e ofereceu saídas profissionais e sociais a toda uma massa de intelectuais das “ciências humanas”, cujo descontentamento causou tanto barulho em maio de 68.

Houve uma expansão massiva do capitalismo, do modo de produção capitalista, nas estruturas da universidade e da pesquisa, bem como na produção cultural, que até então conservavam certas características arcaicas.

Se quisermos condensar a avaliação, podemos descrever o Maio de 68 como um choque para a sociedade que demonstrou que o sistema estatal excessivamente rígido do gaullismo já não correspondia às necessidades. Esse sistema foi simultaneamente posto em causa pela classe operária e pela pequena burguesia, e mesmo pela grande burguesia que começou a já não acreditar nele. A primeira consequência política foi desenhada no ano seguinte. De Gaulle sentiu que era necessário estabelecer mediações entre um regime excessivamente rígido e a diversidade da população. Ele pensou que poderia conseguir isso através da sua política regional. Mas outros apetites estavam crescendo na direção de uma tecnocracia moderna mais complexa. O referendo foi um fracasso e De Gaulle saiu. 1958-1969: terminou de fato um período bem definido de onze anos. Num certo sentido, estávamos começando a regressar a certos aspectos do que existia antes de 1958, incorporando certas conquistas do período gaullista e certas lições da crise.

Do ponto de vista das instituições políticas, o que colapsou em 1958? Um regime governamental muito flexível, constantemente alterado e reequilibrado pelo mecanismo proporcional, crises governamentais frequentes que permitiam representar qualquer grupo de pressão e modificar o equilíbrio das forças políticas. Os bouilleur de cru poderiam derrubar um governo.[14] Dentro da burguesia, isso constituía um regime bastante democrático. As diferentes frações da burguesia e da pequena burguesia tiveram a oportunidade de impor esta ou aquela medida. Mas também para bloquear esta ou aquela reforma urgente.

Esse sistema da Quarta República tinha vantagens exceto em casos de grave crise. Contudo, a França atravessava pelo menos três grandes crises: a crise colonial, a crise da concorrência europeia (o tratado do Mercado Comum tinha sido assinado em 1957 e as pessoas tinham medo da concorrência alemã) e uma crise de envelhecimento econômico, mais ou menos como hoje em dia na Inglaterra. A França perdeu algumas das características dos países industrializados: havia demasiada matéria-prima e produtos agrícolas nas suas exportações, havia ausência de grandes complexos industriais etc. No auge dessa crise, a burguesia nas suas diferentes facções ficou com medo e procurou o homem providencial. Na verdade, o regime gaullista, a partir de 1958, resolveu essencialmente esses três grandes problemas. Tirou a França da armadilha colonial e lançou as bases para uma nova forma de imperialismo francês; preparou algumas das condições para a concorrência europeia; montou (sob a égide de Giscard d’Estaing, então Ministro das Finanças) um projeto de industrialização. Em 1967 apareceu “O Imperativo Industrial” de Stoléru e foi o ano de pico de concentrações, fusões, mas também de falências e desemprego. São dez anos de política dura para resolver os grandes problemas, incluindo pisar no calo de muita gente. Essa política dura atingiu os seus objetivos acumulando descontentamento. Obviamente, não forneceu uma visão clara para navegar entre diferentes interesses concorrentes. Acabou implodindo.

Tendemos agora a regressar a um sistema mais flexível, com um governo supostamente “de centro” e a possibilidade de desfazer alianças parlamentares. Porém, baseado num imenso sistema de enquadramento social implementado principalmente nos últimos dez anos. Um certo número de características da Quarta República, com um executivo muito mais forte, herdado da Quinta e da rede social desenvolvida desde 1968, que foi implementada com a ajuda de boa parte da geração intelectual “contestatária” (é possívels vê-los nos ministérios, nos aparatos culturais, nos gabinetes de pesquisa, nos diferentes sistemas de apoio social). O projeto Chaban-Delmas deu as caras pouco depois de 68, e pode-se ouvir falar dele novamente agora.[15] Penso que de fato tudo isso combina muito bem com as tendências do processo de trabalho e produção que indiquei: uma política de divisão, uma gestão muito diferenciada da força de trabalho.

CC: Na sua opinião, qual seria a melhor coisa que os filhos de 1968, os militantes de extrema esquerda de hoje, poderiam fazer?

RL: Não me considero um descendente de 1968. Fiz a minha escolha alguns anos antes, nas fazendas autogeridas argelinas, depois na classe trabalhadora francesa e imigrante. Encontro justificação na minha adesão ao marxismo em tudo o que tenho visto e vivido durante quinze anos, e não num suposto momento de insurreição.

Dito isso, não pretendo ser portador de qualquer verdade geral e não me sinto em posição de dar conselhos. O que simplesmente observo é que as forças que se dizem revolucionárias ou de extrema-esquerda carecem cruelmente de conhecimento concreto da nossa sociedade, baseado em pesquisas e conexões com o que está no seu cerne – o sistema produtivo. Parece-me realmente que há uma carência trágica desse lado.

Assim que surge um problema político (dissolução da União de Esquerda em 22 de Setembro de 1977,[16] fracasso eleitoral etc.) deixa-se de lado alegremente a fase das análises e investigações substantivas para chegar a algumas posições bem definidas e conhecidas, em que se repete cem vezes os mesmos detalhes, os mesmos diagramas, os mesmos eventos em espiral. Contudo, o PC e o PS, o sistema sindical, não são coisas fáceis de conhecer a fundo, nos seus desenvolvimentos e nas suas funções na sociedade de hoje. E quantas forças sociais e áreas do sistema são simplesmente ignoradas!

É extraordinário ver a capacidade das pessoas em explicar tudo a cada momento, enquanto muitas vezes vivem de mitos e conhecem, na sua maioria, a realidade política e social apenas pela imagem do mundo fornecida pelas instituições de mídia.

Depois, ficamos surpresos em ter surpresas…

Se eu pudesse expressar um desejo, gostaria que os marxistas franceses fossem descobrir a sociedade francesa…

 

 

* Robert Linhart é um sociólogo francês. Ex-membro da Union des jeunesses communistes marxistes-léninistes e da Gauche Prolétarienne, é autor de Lenin, os Camponeses, Taylor, Greve na Fábrica e o Açúcar e a Fome.

 

[1] A UEC integrou a primeira organização política de jovens na França, próxima ao Partido Comunista Francês. A UJCML foi uma organização maoísta fundada em 1966 e banida por decreto presidencial em junho de 1968. Alguns membros fundaram depois a Gauche Proletarienne.

[2] Robert Linhart, Lenin, os Camponeses, Taylor (Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983).

[3] Robert Linhart, Greve na Fábrica, trad. Miguel Arraes (São Paulo: Editora Terra e Paz, 1978).

[4] O Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos (INSEE) é o escritório nacional de estatísticas da França.

[5] Sacilor é um grupo siderúrgico francês extinto.

[6] O Amoco Cadiz foi um petroleiro que encalhou na costa da Bretanha em 1978. Foi o maior derramamento de petróleo desse tipo até então.

[7] Outro grupo siderúrgico francês que mais tarde se fundiu com o Sacilor.

[8] O CNPF (Conseil Nationale du Patronat Francais) foi uma organização patronal francesa, depois transformada no MEDEF (Mouvement Des Entreprises de France).

[9] Maîtres de Forges, o termo usado por Linhart, refere-se às dinastias que dominaram a indústria metalúrgica francesa no século XIX.

[10] Referência a uma campanha midiática de 1976 lançada por Lionel Stoléru, economista francês e então Secretário de Estado para o Trabalho Manual no governo de Giscard d’Estaing.

[11] EDF e PTT: indústrias estatizadas que produziam eletricidade, prestavam serviços postais e de telecomunicações.

[12] SMIC, ou Salaire minimum interprofessionnel de croissance, refere-se ao salário mínimo francês.

[13] Traduzimos ao longo do texto, com imperfeição, o termo francês “quadrillage” para “estrutura”. O termo refere-se a uma grade ou particionamento espacial ou visual, mas também é usado, em particular por Michel Foucault, para implicar um exame detalhado e sistemático desse espaço.

[14] Destiladores artesanais com certos privilégios legais históricos que remontam ao período napoleônico, ou seja, um grupo de interesse bastante específico.

[15] Jacques Chaban-Delmas foi primeiro-ministro da França de 1969 a 1972.

[16] Uma coalizão política, vinculada por um acordo conjunto ao Programa Comum, entre o Partido Socialista Francês e o Partido Comunista Francês, que durou de 1972 a 1977.

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