Carolina Freitas
21 de dezembro de 2022
Desde 17 de setembro de 2022, o mundo assiste ao início de um processo de revolta popular no Irã motivado pelo assassinato de uma jovem curda, Mahsa Amini, de 22 anos, detida em Teerã pela “polícia da moral” (oficialmente chamada de “Patrulha de Orientação”), por estar usando o hijab (véu islâmico) de maneira supostamente equivocada, ao deixar os seus cabelos aparecerem. Mahsa foi presa, espancada e morta na cadeia no dia anterior, como atestaram seus parentes ao verem seu corpo, três dias depois de sua apreensão. Em Zahedan, capital do Sistão-Balochistão, no dia 30 de setembro, ao menos 90 pessoas foram fuziladas pela polícia ao unirem os protestos em memória de Mahsa às denúncias contra o estupro de uma adolescente de 15 anos por um coronel da polícia. A data vem sendo descrita como “sexta-feira sangrenta”.
Estamos em fins de dezembro e as ruas seguem efervescentes contra o regime dos aiatolás. Mesmo com estrondosa repressão policial, condenação de doze ativistas à forca, centenas de mortos pela repressão, milhares de presos e bloqueio sistemático da conexão da internet, inclusive do whatsapp em todo o país, é possível dizer que estamos diante da maior mobilização popular iraniana desde a revolução de 1979, muito maior comparativamente aos levantes sobre o custo de vida e a alta dos combustíveis em 2018 e 2019, quando a repressão sangrenta tombou mais de 1.500 manifestantes.
A escalada histórica de insatisfação social não se limita como antes à capital Teerã, atingindo também boa parte das províncias do interior, em particular onde vivem as minorias curdas, baloch e azeris. Uma multidão de mulheres foi vista nestes quatro meses enfrentando arrojadamente a Guarda Revolucionária Islâmica e a milícia paramilitar Basij. Fogueiras são feitas em em massa dos hajibs, cortando ineditamente com tesouras não apenas os cabelos, mas a atmosfera de subalternidade que gerações e gerações de mulheres atravessaram sob o poder teocrático pós-revolução de 1979.
Embora a participação das mulheres tenha sido ampla e ativa na revolução que derrubou a dinastia Pahlevi, uma configuração normativa religiosa da subordinação das mulheres em termos civis, econômicos e políticos foi instituída e prevalece ainda hoje, ganhando um acirramento novo nos últimos anos. No entanto, o rastilho de protesto pelo assassinato de Amini, embebido pelas mulheres obrigadas ao véu e à reclusão domiciliar, tomou a juventude e os trabalhadores iranianos, esgarçando as graves fissuras de crise social e política no país.
A reprodução como base da crise social iraniana
Para compreender a crise política expressa na mobilização de massas, é preciso antes considerar que há um processo recente de recrudescimento da política repressiva sobre as mulheres. Nos últimos anos, como aponta em seus escritos a socióloga Azadeh Kian, o regime reforçou a política de manter as mulheres iranianas no âmbito doméstico, como forma de controlar e selecionar tão somente a força de trabalho masculina, muito embora a escolaridade feminina seja até superior à dos homens.
Sayyid Ebrahim Raisol-Sadati, conhecido como Ebrahim Raisi, presidente ultraconservador do Irã desde agosto de 2021 – diga-se de passagem, na eleição com menos adesão de pessoas votantes já registrada no país -, deliberadamente agravou o monitoramento policial sobre o uso do véu e a cobertura da cabeça das mulheres, ao mesmo tempo em que o Estado, sob a autoridade suprema de Ali Khamenei, implementa a política de contratação de emprego apenas de homens. Mulheres vão sendo empurradas aos lares e são cada vez mais escassas aquelas que trabalham fora – e, quando o fazem, é quase sempre em ofícios tidos socialmente como femininos, como de professoras ou ginecologistas.
Pelo menos desde 2015, o desemprego feminino no Irã vive uma crescente significativa, o que reforça a concepção de tutela e exclusiva responsabilidade econômica masculina pelas famílias. Não coincidentemente, também desde 2015, Ali Khamenei impulsiona uma política reprodutiva de multiplicação da população, obstruindo itens para contracepção e proibindo vasectomias e abortos, a exemplo de uma nova lei de recrudescimento publicada em 2021. Os casamentos com meninas e adolescentes nesse período também aumentaram e foram oficialmente fomentados. A pobreza segue em escalada e mais da metade dos iranianos vivem em situação de miséria; o custo de vida já vinha sendo motivo de protestos anteriores, como o já mencionado levante de 2019. Ademais, não se pode descartar a relação intrínseca entre a austeridade fiscal, a escalada inflacionária, o impasse nuclear e as consequentes sanções econômicas internacionais e o peso da guerra na Ucrânia no aprofundamento dessa crise.
O signo feminista da luta de classes no Irã
É indubitável a similaridade entre o feminismo das ruas atual e as características que consagraram a Primavera Árabe: eclosões espontâneas, atuação de base e sem lideranças, palavras de ordem unificadoras, mas sem programas políticos nítidos, ações diretas de confrontação com as forças policiais. No polo oposto, é possível dizer que os dirigentes militares e capitalistas no país seguem unidos na experimentação de métodos sanguinários e altamente tecnológicos de repressão.
O que chama atenção e pode ser considerado novo é o signo essencialmente feminista da instauração da revolta. Sem qualquer casualidade, a direção feminista das ruas expressa como a subalternidade das mulheres, inscrita nos ditames estatais religiosos, se plasma na crise econômica de reprodução social, própria dos efeitos das rodadas de neoliberalismo no Irã, como em todo o mundo neste século.
Tal como em outros países e continentes, a luta feminista ganha corpo de luta de massas, acarretando demais segmentos da classe trabalhadora em seus processos de enfrentamento. Com uma população jovem expressiva, o movimento feminista angariou rapidamente o apoio do movimento estudantil nas universidades e nos meios urbanos, bem como das organizações sindicais. Os motoristas do transporte público de Teerã foram uma das primeiras categorias a apoiarem os protestos, bem como os professores e o Comitê Organizador dos Trabalhadores da Indústria do Petróleo, que declarou greve em outubro em protesto à repressão estatal. Uma greve política e feminista da categoria que é, certamente, a mais importante na economia iraniana.
O que se depreende dali é que o acúmulo de insatisfação social gestado nas lutas nos anos anteriores contra a inflação, o desemprego massivo e o empobrecimento pôde adquirir uma forma superior de revolta quando os alvos preferenciais desse desmantelamento social se insurgiram e se fizeram representar: as mulheres, portadoras maiores da negação da política econômica e do regime político dos aiatolás.
Não se pode olvidar também que essa gestação política das ruas assimila muitos dos elementos de resistência clandestina, mas perene, das cidades e vilas curdas no país, alvo geográfico de intensa militarização da Guarda iraniana. As próprias palavras de ordem mais repetidas no movimento – “mulher, vida e liberdade” (“Jin, Jiyan, Azadî”) consagram o potencial lastro feminista de resistência na região, que se espraia de Rojava para outras partes do Curdistão, onde o clima insurreicional e grevista é generalizado e a repressão a balas letais na altura da cabeça e do coração dos manifestantes é sistematicamente orientada e, não à toa, as mortes por policiais são mais frequentes. Mesmo assim, as batalhas dos populares, regadas a coquetéis molotov, parecem incansáveis.
Feminismo do Oriente Médio para além do véu
As palavras de ordem do movimento em curso – “morte ao ditador”, “abaixo a República Islâmica”, “nem Xá, nem Guia Supremo” – de claro intento de derrubada do regime, por democracia e liberdade – se unem à autêntica maré feminista no Oriente Médio, que se posta contrariamente aos poderes instituídos muito além da obrigatoriedade do uso do véu. Estamos diante de um momento histórico novo, que suprassume a Primavera Árabe, agora numa forma declaradamente feminista. Como já comentado, as mulheres são parte inextricável das lutas de classes iranianas, mas pela primeira vez assumem o protagonismo e a perfilação da luta de massas. Misoginia e controle da crise de reprodução social se fundem nas mesmas instituições do poder inimigo das classes trabalhadoras em luta nesta região do mundo.
Se é certo rememorar as lutas pós-revolucionárias das mulheres iranianas, contra o retrocesso de sua condição civil, econômica e política pelo regime de opressão sexista, como no conhecido 8 de março de 1979, que criou a consigna feminista ressoante até hoje – “não fizemos uma revolução para voltar para trás” -, é importante considerar que hoje a palavra de ordem é parte de um espraiamento geográfico do feminismo, que atravessa destacadamente a Síria, a Turquia, a Palestina, o Líbano e a Tunísia. Centrar a efervescência política simplesmente nos véus é um equívoco que não merece mais qualquer complacência.
O fetiche do hijab foi, como sabemos, frequentemente utilizado para finalidades islamofóbicas, racistas e de ódio aos muçulmanos. Na França e boa parte da Europa (inclusive com entusiasmo das feministas locais), a fetichização do véu o leva a ser apresentado como um “livramento” necessário e impositivo para integração no Ocidente, como o hijab sendo não apenas proibido, mas criminalizado para controlar a classe trabalhadora imigrante. Se na Argélia colonizada entre as décadas de 1950 e 1960 a queima de véus era uma necessidade dos colonizadores contra o que as revolucionárias argelinas em guerra se levantavam, ou seja, contra uma intrusão de controle colonial, atualmente as mulheres queimam estes tecidos, simbolizando sua oposição ao regime interno de seus países. São circunstâncias paradoxais, que desafiam a representação essencialista dos véus, situada diferentemente no tempo e no espaço da história de opressão às mulheres.
Mesmo com a comoção internacional expressa ao longo da Copa do Mundo em defesa dos protestos, o regime iraniano vem recrudescendo ainda mais a violência contra ativistas, já tendo executado dois enforcamentos de manifestantes. Pelo menos mais doze pessoas estão condenadas à forca e esperam a pena no corredor da morte. Uma delas é o jogador de futebol Amir Nasr-Azadani, de 26 anos. A radical luta de massas no Irã hoje depende também da solidariedade internacional aos movimentos tectônicos feministas e antirregime em curso. “Mulher, vida e liberdade” é, mais que um grito revolucionário iraniano, um eco lançado aos quatro cantos do mundo neste século XXI.