Contrabando Editorial

Kit Wainer resenha o recente livro de Ilya Budraitskis.

Há uma narrativa comum no Ocidente, que corresponde à narrativa do Kremlin, segundo a qual o governo russo pode até ser tirânico, mas conta com o apoio da maioria do povo russo, ao passo que a minoria dissidente, embora corajosa, não tem capacidade alguma de mudar a sociedade. Isso se ajusta à visão que o regime de Vladimir Putin tem de si mesmo como herdeiro de um Estado milenar. Em seu importante livro — leitura obrigatória para a esquerda —, Dissidentes entre os dissidentes, Ilya Budraitskis, que leciona na Escola de Ciências Sociais e Econômicas de Moscou e no Instituto de Arte Contemporânea de Moscou, escreve:

Essa “geopoliticização” da Rússia, que serve para obscurecer os conflitos sociais no interior do país — e, acima de tudo, os antagonismos de classe —, infelizmente também influenciou parcelas da esquerda ocidental, que com demasiada frequência se mostraram dispostas a desculpar as ações do regime russo contemporâneo sob o argumento de seu caráter “anti-imperialista”.

Com essa abertura, Budraitskis levanta algumas questões fundamentais sobre como a esquerda ocidental compreende os acontecimentos na Rússia e como se relaciona com a nova esquerda socialista de lá. São, na verdade, velhas questões sob nova roupagem. Durante a maior parte do período soviético, o stalinismo — tanto na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) assim como entre os marxistas ocidentais — bloqueou o diálogo entre socialistas de cada lado da cortina de ferro. Convencidos de que o governo soviético, ainda que problemático, representava um campo socialista, setores importantes da esquerda no ocidente impuseram a si mesmos a ignorância sobre o que o “socialismo realmente existente” significava para os trabalhadores, para os intelectuais e para os dissidentes de esquerda dentro da sociedade soviética. É claro que os censores soviéticos restringiam a informação, tornando a ignorância uma opção mais fácil.

Dissidentes entre os dissidentes abre com uma coletânea de ensaios curtos sobre a visão de mundo de Putin e os fundamentos ideológicos da política das elites russas modernas. As obras de Ivan Ilyin, o filósofo conservador russo do início do século XX, influenciaram o pensamento das autoridades russas atuais. Citações descontextualizadas de Ilyin aparecem com frequência nos discursos de Putin. Ilyin acreditava que um Estado forte, disposto a usar a violência contra os adversários, era necessário para proteger o “Bem” contra um mal que ele associava ao individualismo e à liberdade pessoal ocidentais.

Segundo a doutrina de Ilyin, todo participante do sistema de poder, independentemente de seus motivos pessoais, está envolvido no Bem substancial, no divino “poder da evidência”, sejam eles carcereiros, policiais, promotores ou generais do FSB (Serviço Federal de Segurança)…

Ao apoiar os exércitos Brancos na guerra civil russa, Ilyin tinha esperança de que a contrarrevolução triunfante renovasse a autoridade política da Igreja Ortodoxa. Após sua deportação em 1921, tornou-se um defensor engajado dos fascismos italiano e alemão. É claro que os burocratas de Estado provavelmente não leram Ilyin, e as reflexões de Putin sobre a obra do filósofo podem ter sido apenas escritas por redatores de seus discursos, mas a redescoberta das ideias de Ilyin parece fornecer justificativa para o uso crescente da tortura policial com o fim de extrair falsas confissões.

A adesão crescente de Putin ao ultraconservadorismo não correspondia ao contraponto de uma ameaça política em ascensão dentro da Rússia do século XXI, mas a sinais de alarme vindos de fora das fronteiras russas e ao temor do Kremlin de que a agitação interna pudesse levar a uma “revolução colorida”. Após a primeira revolução do Maidan na Ucrânia, em 2004, Moscou aprovou uma série de leis antirrevolucionárias em nome de proteger a multidão contra influências perigosas.

No mapa antirrevolucionário do mundo, que tem suas raízes na era das monarquias, o povo é completamente infantilizado: essas “crianças” não conseguem compreender seus reais desejos e necessidades, e figuras paternas de autoridade devem ao mesmo tempo puni-las e protegê-las da sedução.

Quando seu terceiro mandato começou, em 2012, Putin comprometeu-se com a defesa do neoliberalismo econômico e com uma aliança entre um Estado cada vez mais repressivo e a Igreja Ortodoxa. Vladimir Medinsky, ministro da Cultura até 2020, liderou a cruzada contra o financiamento estatal de trabalhos culturais considerados antipatrióticos ou que promovessem os direitos de pessoas transgênero ou gays. Grupos políticos conservadores apoiaram com vigor uma repressão cultural, advertindo que a arte antipatriótica “produziria os futuros participantes de um Maidan russo”. Esse foi o pano de fundo da prisão das Pussy Riot, o grupo de punk rock feminista que realizou, em 2012, uma apresentação não autorizada dentro da catedral Cristo Salvador, em Moscou.

A guerra cultural russa também dominou a narrativa oficial sobre o significado da Revolução Russa. O Comitê Organizador do Centenário da Revolução Russa de 1917 reuniu acadêmicos e jornalistas conservadores que denunciavam os bolcheviques como divulgadores de uma perigosa mitologia utópica. No entanto, tomando de empréstimo o conservadorismo francês dos séculos XIX e XX, reinterpretaram a revolução como algo que, em última instância, revigorou o império russo. Nessa releitura, Lênin desempenhava o papel de mitólogo pernicioso, e Stálin, o de redentor.

Dissidentes entre os dissidentes

A segunda metade da obra de Budraitskis examina a história dos militantes de esquerda, em sua maioria clandestinos, durante o período do pós-guerra e o ressurgimento de uma esquerda nos anos pós-soviéticos. Essa história não é bem conhecida fora da Rússia. A repressão soviética restringiu a circulação das ideias de esquerda, ao passo que a maior parte da esquerda ocidental não tinha interesse em conhecer esses dissidentes durante a Guerra Fria.

Nas últimas décadas da URSS, a forma mais disseminada de oposição ao regime era uma crítica social baseada no descompasso entre os proclamados princípios soviéticos e a realidade das pessoas; e, contra esse pano de fundo, era o anticomunismo que parecia extremamente marginal.

Budraitskis começa com um exame dos esforços dos dissidentes socialistas durante o período do “Degelo” de Nikita Khruschov (1956–64). Influenciados pela crescente oposição à corrupção e à desigualdade, pelos levantes húngaro e polonês de 1956–57 e pela brutal repressão da greve de 1962 em Novocherkassk, na Rússia, os socialistas de oposição deflagraram uma serie de protestos durante o Degelo. “Nesse período, surgiram nas grandes cidades e nos centros regionais grupos de jovens voltados a uma análise independente da sociedade a partir de uma perspectiva marxista e à busca de uma estratégia de reforma socialista a partir de baixo, mediante o desenvolvimento da democracia industrial e da autogestão operária.”

Alguns desses grupos juvenis dissidentes acreditavam que poderiam trabalhar pela mudança dentro do Partido Comunista. Outros acreditavam que o sistema podia ser reformado, mas tentavam também exercer pressão de fora dos círculos oficiais. Alguns começaram a se reunir na Praça Maiakóvski, em Moscou, em 1958.

O tenso pano de fundo social do Degelo fez com que questões fundamentais — se a URSS era um Estado operário, a que interesses servia, qual era a real estrutura social da sociedade soviética e, por fim, se havia uma alternativa socialista ao poder ilimitado da burocracia — se tornassem cada vez mais relevantes.

Os jovens dissidentes do Degelo mergulharam nas obras de Marx e Lênin e foram influenciados por comunistas reformistas do Leste Europeu. Apesar de suas denúncias do stalinismo, o governo de Khruschov ainda era repressivo. Os dissidentes de esquerda tinham de se reunir em pequenos grupos clandestinos e temiam recrutar seguidores em excesso. Em 1959, a KGB desmantelou os encontros da Praça Maiakóvski e enviou vários líderes a hospitais psiquiátricos. Ainda assim, muitos dos manifestantes voltaram a se reunir em 1960.

Em Leningrado, em 1956–57, o grupo Vail atraiu jovens socialistas de esquerda. Como seus pares em Moscou, muitos se interessavam pelos primeiros debates socialistas, à medida que buscavam alternativas ao comunismo oficial. Liam as obras de Mikhail Bakunin e da Oposição Operária, que desafiou Lênin pela esquerda no início da década de 1920, além de textos de líderes do grupo terrorista oitocentista Naródnaia Vólia (Vontade do Povo) e do Partido Socialista-Revolucionário, de base majoritariamente camponesa. O grupo Vail publicou “Teses sobre a Revolução Húngara” e “A Verdade sobre a Hungria”, que enfatizavam o papel dos conselhos operários. Eles contrapunham o governo dos conselhos operários ao do Estado comunista burocrático, que consideravam capitalista de Estado.

A KGB desmantelou o grupo Vail em 1958, mas dois anos depois um punhado de membros dissidentes do Komsomol (a juventude comunista) formou a União dos Communards em Leningrado. Seus líderes escreveram “Da ditadura da burocracia à ditadura do proletariado” em 1963. Consideravam-se leninistas e citavam o livro de Lênin O Estado e a Revolução. Identificavam a burocracia como uma nova forma de classe dominante, porém progressista em relação ao capitalismo. Definindo-se como a “oposição comunista revolucionária”, reivindicavam igualdade salarial, a eliminação da KGB, um sistema multipartidário e o fim da nomenklatura. Os líderes foram presos em 1965. Budraitskis explica:

É importante compreender o significado singular de O Estado e a Revolução de Lênin para as gerações das décadas de 1950 e 1960, no desenvolvimento de uma abordagem crítica da realidade do socialismo soviético. Por exemplo, [um dissidente] recordava de um operário de Leningrado “que distribuía cópias de O Estado e a Revolução… no chão de fábrica. Em cada cópia estavam sublinhadas a lápis vermelho as exigências de eleição de todos os funcionários, de sua revogabilidade e da limitação de seus salários ao salário de um operário médio”.

Após diversas prisões, muitos dos jovens socialistas voltariam a se reconectar na prisão e a continuar fazendo circular suas ideias.

Nas décadas de 1960 e 1970, dados oficiais indicam o surgimento de centenas de grupos dissidentes, cerca de um terço dos quais se identificava como socialista. Muitos deles faziam circular publicações em samizdat e começaram a ler as obras de marxistas ocidentais, inclusive os influenciados pelo eurocomunismo e pela Escola de Frankfurt.

Roy Medvedev começou a publicar seu Diário Político em samizdat para influenciar os “democratas do partido”, na esperança de reformar o regime. Publicou ensaios sobre o marxismo ocidental e sobre a repressão à Primavera de Praga. Mas, já na década de 1970, Medvedev se encontrava na ala esquerda de uma divisão crescente entre os dissidentes russos. Medvedev e outros socialistas enfrentavam ataques tanto de liberais de orientação ocidental, como Andrei Sakharov, quanto de Aleksandr Soljenítsin, que almejava o renascimento de uma teocracia ortodoxa e denunciava tanto o marxismo quanto o liberalismo.

Elkon Gergiévitch Leikin, vulgo Aleksandr Zimin, estava entre os poucos socialistas dissidentes russos que tinham conexões diretas com grupos marxistas da Europa Ocidental. Veterano das oposições antistalinistas da década de 1920, seu livro As Origens do Stalinismo foi publicado pela Liga Comunista Revolucionária trotskista francesa no início da década de 1980. Era um dos poucos Velhos Bolcheviques remanescentes que insistiam em que a liderança soviética havia traído a Revolução Russa.

Em 1977, foi formado o grupo Jovens Socialistas na Universidade Estatal de Moscou. Boris Kagarlitsky estava entre seus membros. Eles acessavam arquivos restritos e estudavam as obras de Leon Trotsky e Antonio Gramsci, bem como de marxistas ocidentais e eurocomunistas contemporâneos. Acreditavam que a intelectualidade de esquerda precisaria deflagrar uma nova revolução operária e, por isso, polemizavam contra a ala liberal em ascensão do movimento dissidente. A KGB desmantelou o grupo e prendeu alguns de seus membros. Enquanto Kagarlitsky fez várias tentativas de formar organizações socialistas na década de 1980, outros derivaram para a direita durante o período da perestroika.

Da era de Mikhail Gorbatchov até hoje, observa Budraitskis, a esquerda russa teve menos conexão com um passado socialista do que é comum entre a esquerda internacional. Segundo autor, “o stalinismo rompeu o fio histórico da tradição revolucionária russa, e apenas fragmentos dessa tradição foram preservados, mesmo pela geração do Degelo pós-stalinista das décadas de 1950 e 1960.”

No fim da década de 1980, alguns membros da esquerda antistalinista formaram correntes trotskistas e anarquistas. Ao mesmo tempo, emergiu uma forma peculiar de stalinismo populista, tanto entre os líderes do partido contrários às reformas de Gorbatchov quanto entre trabalhadores indignados com a corrupção. Depois de 1991, os neostalinistas lutaram contra as medidas pró-capitalistas de “terapia de choque” do governo de Boris Yeltsin. Formaram o núcleo dos apoiadores do parlamento russo em seu choque violento com o presidente, em 1993, antes de se reunirem ao Partido Comunista. O partido conquistou um número crescente de cadeiras nas eleições parlamentares ao longo da década de 1990, antes de derivar rumo ao nacionalismo ortodoxo.

Isso refletia em parte as características da base militante e eleitoral do Partido, que reunia aposentados empobrecidos, a intelectualidade de massa (médicos, professores, pesquisadores científicos) que saiu perdendo com as reformas de mercado, trabalhadores lumpenizados das antigas empresas soviéticas, os escalões médios nostálgicos da burocracia, um setor da classe gerencial e oficiais do exército.

Ao longo dos últimos vinte e cinco anos, a esquerda socialista teve êxitos episódicos, apoiando greves trabalhistas na década de 1990 e opondo-se às medidas de austeridade de Putin no início dos anos 2000. Ao mesmo tempo, uma nova extrema direita de skinheads e hooligans de futebol surgiu durante os anos 2000 e teve como alvo as minorias, bem como imigrantes da Ásia Central. Em resposta, teve início um movimento antifascista, e ocorreram brigas de rua entre os dois lados.

A repressão e a resposta de Putin ao levante do Maidan na Ucrânia, em 2014, dividiram e enfraqueceram a esquerda russa. Putin conseguiu retratar os manifestantes como quintas-colunas ocidentais determinadas a derrubar os valores tradicionais da maioria silenciosa da Rússia.

A prisão dos membros das Pussy Riot, assim como o início de uma campanha homofóbica na imprensa estatal, contribuiu para a interpretação do movimento de protestos em termos de choques culturais, com a minoria que se manifestava condenada à derrota.

Os acontecimentos na Ucrânia em 2014 também cindiram a esquerda. Alguns acreditavam que o movimento independentista em Donetsk sinalizava uma inevitável revolta operária contra um regime reacionário em Kiev. Muitos trotskistas, por outro lado, acreditavam que a Ucrânia estava presa numa rivalidade interimperialista entre a Rússia e o Ocidente e que os líderes independentistas de Donetsk e Lugansk representavam regimes fantoches russos.

Depois de 2017, a situação política pareceu mais promissora. O líder liberal Alexei Navalny convocou protestos contra a corrupção. Embora criticassem sua filosofia pró-mercado, a maioria da esquerda apoiou os protestos. As reformas da previdência promulgadas em 2018 aumentaram bastante a quantidade de anos que os russos têm de trabalhar, despertando também uma indignação crescente. Além disso, um novo feminismo emergiu desde 2010.

Uma característica importante dessa nova onda do feminismo russo é sua conexão com a crítica anticapitalista de esquerda, que se manifesta no plano programático assim como na interação prática com grupos de esquerda.

A obra de Budraitskis é reveladora e necessária. Ainda assim, é difícil lê-la sem experimentar uma sensação de tragédia. A saga de uma geração após outra de socialistas de esquerda tentando desenvolver uma análise da realidade soviética e uma alternativa democrática revolucionária é inspiradora, mas suscita a pergunta inevitável: por que a esquerda ocidental sabia tão pouco a respeito deles e fizeram tão poucos esforços para alcançá-los e dialogar com eles?

Com certeza o Estado soviético merece grande parte da culpa. Sucessivos regimes do Kremlin prenderam militantes socialistas, forçando-os a operar na clandestinidade e a produzir apenas pequenas tiragens de suas publicações. A censura também dificultava que suas obras fossem traduzidas ou transportadas para fora da URSS. A história da repressão antissocialista é uma das muitas que ilustram que o comunismo soviético, de Stálin em diante, na verdade trabalhou ativamente para impedir a disseminação das ideias marxistas entre a classe trabalhadora, para limitar a capacidade dos socialistas de interagir e de utilizar o marxismo no desenvolvimento de análises mais serias, e para impedir o surgimento de um internacionalismo autêntico.

Mesmo assim, a esquerda internacional precisa ser responsabilizada. Dos anos 1950 até os anos Gorbatchov, as correntes comunistas oficiais e outras forças pró-soviéticas e maoístas dominaram o discurso da esquerda global na maioria dos países. Na esquerda antistalinista, convencer os ativistas dos movimentos sociais de que a União Soviética não era um modelo ficava ainda mais difícil porque a maioria da esquerda insistia que a URSS era de fato socialista. Eles reforçavam a narrativa da Guerra Fria que uma minoria da esquerda tentava questionar, facilitando que as forças liberais e de direita desacreditassem o socialismo.

Não surpreende que os stalinistas fora da URSS não tivessem interesse algum em conhecer os dissidentes socialistas de dentro da URSS, em se relacionar com eles ou em divulgar suas obras. Tampouco estavam interessados em desenvolver análises comuns, estratégias comuns ou um internacionalismo real. Em vez disso, a esquerda pró-soviética aceitou a avaliação de Washington de que o mundo estava dividido em campos hostis e escolheu o lado soviético, com sua polícia e seu Estado carcerário.

Vale a pena recontar essa história quando encontramos hoje uma parcela considerável da esquerda internacional ainda se identificando com o campo russo, mesmo que sua liderança não faça qualquer pretensão de ser socialista ou sequer vagamente progressista. Enquanto a Guerra Fria original forçava os intelectuais a se alinharem a uma das grandes potências, há hoje pouca pressão nesse sentido. Como escreve Budraitskis:

As condições contemporâneas não obrigaram ninguém a escrever colunas contra os “idiotas úteis de Putin” ou contra os apoiadores do “Maidan nazista”. Sob o domínio de alguma inércia monstruosa, os intelectuais se mostraram dispostos a fazer essa falsa escolha por conta própria.

Infelizmente, essa avaliação também se aplica aos intelectuais da esquerda contemporânea. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 desencadeou o crescimento de um novo movimento antiguerra na Rússia e apresentou ao mundo uma nova geração de feministas e socialistas russas. Budraitskis é uma voz importante desse novo desenvolvimento. É fundamental que não repitamos os erros das gerações passadas da esquerda, alinhando-nos a regimes cuja única virtude é se oporem ao nosso próprio. Em vez disso, devemos nos solidarizar com a nova esquerda que emerge na Rússia e na Ucrânia. Como diz Budraitskis:

Talvez seja aqui que um marxismo internacionalista possa reaver sua relevância. Ele nada tem em comum com o suposto reconhecimento da diversidade cultural pelo liberalismo, nem com a crítica “iliberal” do mundo unipolar; em vez disso, dirige-se à unidade do mundo dos explorados. É o que se poderia chamar, seguindo Immanuel Wallerstein, de um “universalismo antiuniversalista”: a rejeição da violência colonial, não em favor do particularismo e da retórica do “choque de civilizações”, mas por meio da afirmação de uma autêntica igualdade e solidariedade.

Kit Adam Wainer é professor aposentado da rede pública de Nova York e militante do Movement of Rank and File Educators (Movimento de Educadores de Base) dentro da United Federation of Teachers (Federação Unida de Professores). Seu texto foi publicado pela primeira vez na revista Tempest.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *