Jacob Seagrave*
Em setembro de 1979, Robert Linhart, estudante proletarizado e militante da Union des jeunesses communistes marxistes-léninistes e da Gauche prolétarienne, realizou uma investigação de duas semanas sobre a condição dos trabalhadores da cana-de-açúcar em Pernambuco, no Nordeste do Brasil. Após a anistia concedida depois de quinze anos de ditadura militar, Linhart viajou como “jornalista francês” à zona da mata, o centro histórico das plantações de cana. Ali, fez enquetes amplas junto a trabalhadores agrícolas sem terra, pequenos camponeses, sindicalistas, apoiadores do governo, donos de engenho, acadêmicos e antigos revolucionários, documentando uma transição nova e letal, de capital intensivo, voltada à produção de etanol como combustível.
O que encontrou ali o “estilhaçou”: uma situação em escalada de “fome elaborada, fome avançada, uma fome em expansão, numa palavra, uma fome moderna”, impulsionada por uma nova onda de expropriação e mecanização que eliminava o acesso, por mais precário que fosse, à terra que ainda restava nas margens dos latifúndios. Famílias eram empurradas para as favelas, de onde continuavam a se deslocar para trabalhar nos canaviais por salários ainda menores. Presos entre o urbano e o rural (como disse um trabalhador, “perdidos no meio do mundo”), esse regime intensificado de subsunção real gerava uma crise na reprodução da força de trabalho: desnutrição extrema e monotonia alimentar, doenças disseminadas e alta mortalidade infantil. Para Linhart, tratava-se de uma “produção sistemática de humanidade subalterna, reduzida a uma existência quase vegetativa, mas da qual o capitalismo extrai sua força de trabalho”. Francisco Julião, líder exilado das Ligas Camponesas, descrevera a região em 1968 de modo semelhante: “um campo de concentração onde vinte milhões de criaturas humanas famintas estão sofrendo”.
O açúcar e a fome, [novamente] traduzido quarenta e seis anos após sua publicação em francês, em 1980, é uma exposição das origens sangrentas do neoliberalismo no laboratório repressivo da América Latina, e de seu funcionamento como movimento para recuperar os superlucros do imperialismo diante das revoluções anticoloniais e agrárias. Trata-se de um livro curto e dinâmico que aborda esse momento de transição como ele ocorreu no Brasil. Antes do golpe de 1964, Pernambuco foi palco de intensa luta de classes e de interesses internacionais em torno da chamada “Questão Nordestina”. As Ligas Camponesas despertavam o espectro da revolução agrária no estado enquanto o governo popular de esquerda de Miguel Arraes lutava para implementar reformas sob a tensão da interferência dos EUA, disfarçada de ajuda humanitária. Paulo Freire experimentava programas de alfabetização no Recife. Ted Kennedy chegou a visitar o Engenho Galileia — o engenho expropriado de onde se originou o movimento camponês — prometendo um gerador. Ao final, os EUA deram sinal verde para a tomada do poder pelos militares.
Nos encontros realizados quinze anos depois, Linhart ainda consegue detectar, em meio ao medo e à miséria, um legado de resistência herdado das Ligas Camponesas e, numa cena final pungente, a sobrevivência do Engenho Galileia. Testemunha dos prenúncios de uma greve que acaba por ser negociada, seu relato desse redespertar político também antecipa o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Fundado em 1984, o MST retomou as ocupações dos grandes latifúndios e hoje conta com aproximadamente 900 acampamentos, abrigando cerca de 150 mil famílias em todo o Brasil.
De modo mais amplo, o livro dialoga com uma extensa gama de debates recentes sobre acumulação primitiva e superexploração, a relação entre mercado e violência, necropolítica, intercâmbio ecológico desigual, extrativismo e críticas ao capitalismo verde e ao desenvolvimentismo. Ele compartilha muito com o trabalho de Mike Davis sobre favelas e holocaustos tardo-vitorianos. A principal conceituação de Linhart, a de “fome moderna”, baseia-se no trabalho antimalthusiano do recifense Josué de Castro, cuja pioneira Geografia da Fome (1946) trouxe pela primeira vez atenção global à crise do Nordeste.
O relato de Linhart sobre a força tanatológica do capital na lenta destruição dos corpos humanos, seu detalhamento de lesões cerebrais fetais e nanismo decorrentes da desnutrição, hoje só pode lembrar ao leitor o que está sendo infligido à população de Gaza pela campanha implacável de genocídio conduzida por Israel. O funcionamento do sionismo como sistema de apartheid e agora de extermínio declarado coloca a questão do interesse ambivalente do capital na reprodução da vida humana em contextos coloniais de povoamento — assim como a mesma questão se coloca na transição do escravismo colonial para um tipo de escravidão assalariada no Brasil.
A indignação investigativa de Linhart também se inscreve na mesma linhagem dos encontros comunistas prototípicos de Engels com o mundo proletário da Manchester dos anos 1840 em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (1845). Onde Linhart fala de um “apodrecimento imenso” sem fim, Engels denunciava o “assassinato social” da Inglaterra industrial inicial. Este livro constitui uma parte tardia dessa longa e amplamente negligenciada genealogia da etnografia comunista, que começa com o jovem Engels, cuja imersão na diversidade da vida da classe trabalhadora foi condição necessária para a leitura materialista-histórica do potencial político de uma condição proletária ao mesmo tempo miserável.
De forma mais provinciana, o livro também funciona como um desfecho alternativo para a aventura do maoísmo francês, contrapondo-se à teleologia renegada dos nouveaux philosophes. Enquanto antigos camaradas retornavam em silêncio à vida cotidiana ou se deslocavam para a direita, e as enquetes de outros proletarizados — como os da Union des communistes de France marxiste-léniniste de Badiou e do Groupe d’information sur les prisons — chegavam ao fim, Linhart continuou a experimentar formas investigativas ao longo dos anos 1970. Voltado a revelar o mundo oculto e mutável da produção e a realidade concreta da luta de classes situada, escreveu relatórios sobre a transferência de tecnologia na Argélia (1977) e sobre o complexo petroquímico próximo a Marselha (1978), além de uma série de investigações sociológicas nos anos 1980, com sua irmã Danièle Linhart, sobre uma França industrial em processo de neoliberalização.
Ainda assim, ele talvez seja mais conhecido por seu outro memorial etnográfico, L’établi (1978) [livro publicado em português como Greve na Fábrica, em tradução de Miguel Arraes]. Relato em primeira pessoa de sua proletarização de um ano numa fábrica da Citroën em Choisy, logo após as experiências desestabilizadoras de Maio de 68 — durante as quais liderou a UJCml a se opor aos acontecimentos, vistos como uma manobra pequeno-burguesa —, Linhart concentra-se na divisão racializada do trabalho dentro da fábrica. Transferido de posto em posto como incompetente, mas ainda assim considerado mais qualificado do que seus colegas argelinos, iugoslavos ou da África Ocidental por ser francês, a narrativa se desenvolve por meio de uma série de encontros prolongados em diferentes pontos da linha de montagem. Perfis de histórias migrantes e de estratégias diante do trabalho constroem um foco na natureza colonial da divisão do trabalho e na pluralidade da experiência operária. O livro se opõe à idealização (ou demonização) da classe trabalhadora como um bloco homogêneo, insurgindo-se contra a ilusão de que a classe média “detém o monopólio das histórias pessoais”.
Inspirado pelo famoso dictum de Mao, de 1930 — “sem investigação, não há direito à palavra” —, o giro de proletarização foi um movimento para reeducar intelectuais na escola das massas e, por meio do trabalho e da militância em fábricas e campos, construir um novo tipo de partido enraizado nas lutas e aspirações reais da classe trabalhadora. Uma enquete era uma indagação de curto prazo, nem sempre focada apenas na classe trabalhadora nem imersa num espaço de trabalho. No Brasil, Linhart contou com dois guias, um jovem estudante, Reynaldo, e o sindicalista Antônio, e falou com pessoas de um amplo espectro de classes. Na tipologia metafórica do discurso de Mao de 1957, tratava-se de “descer do cavalo para olhar as flores”, em oposição a “se fixar”.
Se em livro Greve na Fábrica, Linhart desenvolve de modo consistente uma narrativa mais etnográfica, fixada à mise-en-scène do chão de fábrica, o estilo visualmente fugaz de O açúcar e a fome (Contrabando Editorial, 2026) expressa sua forma investigativa móvel e aleatória. Suas 124 páginas se dividem em 26 capítulos curtos e pontuados, registro visual de um fluxo de diferentes personagens e cenas, construindo um impulso que integra várias escalas de contexto histórico, fatos, testemunhos de trabalhadores e camponeses e opiniões especializadas, ao mesmo tempo em que é animado e interrompido por frequentes aproximações e afastamentos descritivos de uma realidade social cindida — uma estética que corresponde à situação política incerta. Esse estilo fragmentado, mas fluido, encena a disjunção do próprio encontro: o Primeiro Mundo encontrando suas pré-condições de violência e miséria, ocultadas no Terceiro Mundo.
Isso é introduzido de forma adequada no prólogo, com a cena de uma viagem de carro. Canções dos Beatles e sucessos musicais da época tocam enquanto passam cartazes de cinema e gramados de clubes de golfe, ao passo que famílias desnutridas partem para o trabalho. “Você faz perguntas sobre suas condições de vida. Eles lhe dão respostas curtas, frases desconexas. E você entende, enquanto falam, que estão com fome, que suas mulheres estão com fome, que seus filhos estão com fome.” Ainda assim, você segue adiante, “a estrada, de novo, que o leva para longe. Para você, a vida continua”. Como diz um interlocutor: “A fome do Nordeste vai fazer os carros rodarem pelo país inteiro”.
A explicitação da fome como pilar constitutivo do modo de vida imperial em outros lugares expõe o leitor a zonas antes reprimidas e excluídas da operação violenta do capital, gerando um sentido ampliado da totalidade do capitalismo a partir do qual uma nova solidariedade pode ser desenvolvida. Greve na Fábrica identificou como a Citroën se expandiu pelo mundo para “raspar a pobreza das aldeias mais remotas”, ao mesmo tempo preservando-a e refazendo-a nas hierarquias refinadas e na complexa composição técnica da fábrica. O açúcar e a fome acompanha a mercadoria até seu ponto de origem na miséria e traça seu entrelaçamento com legados históricos da escravidão colonial e do latifúndio, agora dinamizados pelo capital multinacional e por inovações no motor de combustão interna.
Por meio dessa preocupação persistente com transições revolucionárias e capitalistas, Linhart desenvolveu uma análise sofisticada das formações inter e intraclasse em relação às mudanças técnicas no processo produtivo e às divisões do trabalho decorrentes delas, tudo isso no interior das realidades neoimperiais do desenvolvimento desigual e combinado. Logo no início de sua viagem, ele se depara com a complexidade das posições agrárias de classe, registrada na proliferação de diferentes terminologias. Trabalhadores diaristas são chamados coloquialmente de boias-frias ou, de forma mais técnica, de clandestinos, pela falta de documentos, em contraste com os fichados (contratados). Caboclo é um termo racializado, significava uma pessoa indígena de origem mista; hoje, “denota um camponês miserável”. As Ligas Camponesas escolheram o termo camponesa, ainda que, em Pernambuco, sua aliança interclassista fosse composta em grande parte por trabalhadores sem terra, além de pequenos posseiros com direitos precários à terra e também meeiros rurais em regime de corvéia.
Imerso na história da Rússia pós-revolucionária — seu Lenin, os camponeses, Taylor (1976) permanece sem tradução em inglês [publicado no Brasil em 1983 pela Editora Marco Zero] — Linhart desenvolveu um conceito de classe como, acima de tudo, um processo político de formações em deslocamento. Em seu trabalho, ele sugere que a luta de classes só pode ser compreendida de forma concreta: travada por meio de vidas particulares, a partir de posições e condições de vida específicas, em decisões, lugares, conjunturas históricas e situações móveis. Essa imaginação revolucionária parece ter sobrevivido aos anos 1970 apenas por meio de uma experimentação comprometida com o método da investigação, que o manteve em contato com a dinâmica de diferentes movimentos políticos. Foi também o resultado de atravessar seu teoricismo althusseriano inicial e a imediaticidade maoísta, ao mesmo tempo em que criticava o obreirismo desiludido que reescreveu a experiência do Greve na Fábrica como Bildung burguês.
Comparado a muitos de seus contemporâneos, destaca-se que desde seus primeiros anos na École normale supérieure Linhart foi um participante ativo e observador de lutas revolucionárias fora da França metropolitana. Como afirmou numa entrevista em 1977: “Não me vejo como um filho de 1968. Fiz minha escolha vários anos antes, nas fazendas autogeridas da Argélia, depois na classe trabalhadora francesa e imigrante. Encontro a justificativa para minha adesão ao marxismo em tudo o que vi e vivi ao longo de quinze anos, não num suposto momento de agitação”.
Em 1964, visitou a Argélia, trazendo de lá o maoísmo que o levaria às comunas populares da China em 1967, ao lado de outros militantes da UJCml. Retornou à Argélia em 1974, e foi seu envolvimento direto no processo de reforma agrária no sul de Portugal após a Revolução dos Cravos, em 1975, que o levou ao Brasil no período de 1976–77 e novamente em setembro de 1979. Em vez de permanecer para sempre atado ao drama de Maio de 68 e à lenda do maoísmo francês, a obra de Linhart pode ser vista, primeiro, em termos de seu compromisso duradouro com os encontros comunistas e as lutas concretas — urbanas e agrárias, muitas vezes centradas em transições e, quase sempre, relacionadas ao “Terceiro Mundo” como lugar e projeto.
Em 1980, numa entrevista incluída no livro [Contrabando Editorial, 2025], Linhart criticou a “linguagem de madeira, as simplificações ideológicas, as euforias midiáticas e as amnésias abruptas” da cultura intelectual francesa. Falou da necessidade de “inventar um estilo, modos de funcionamento, uma espécie de credibilidade” — fora da pseudo-sobrevivência do marxismo na universidade — que pudesse produzir “uma cultura viva de análise social”. Essa ênfase cultural, contudo, evita em certo sentido uma questão mais difícil: que tipo de forma organizacional poderia mediar essa análise como parte da luta política? Apesar de seus engajamentos, no final dos anos 1970 Linhart aparece como uma figura bastante solitária. Trabalhando como acadêmico e economista, continuou a investigar como indivíduo, mas desvinculado de uma forma-partido que deveria ser construída por meio dessa práxis ocupando um papel obstétrico ou editorial em relação à classe trabalhadora.
O trabalho da antropóloga norte-americana Nancy Scheper-Hughes, que realizou trabalho de campo em Pernambuco ao longo dos anos 1980, também levanta essa questão da organização. Ao focar na violência cotidiana da mortalidade infantil desenfreada e na “morte sem choro” que a acompanhava, Scheper-Hughes foi levada a repensar sua suposta neutralidade diante da indignação de seus interlocutores com sua falta de participação e aparente indiferença às lutas políticas deles. Em 1995, ela defendeu uma “antropologia militante”, “politicamente comprometida e moralmente engajada”, animada pela “primazia do ético”, por meio da qual etnógrafos individuais poderiam agir menos como amigos ou patronos coloniais e mais como camaradas. Se Linhart nunca compartilhou essa noção de neutralidade antropológica ou acadêmica, enquadrando de forma direta o problema do intelectual tradicional em termos comunistas, ambas as figuras se unem, ainda assim, pela preocupação em agir com fidelidade às lutas de seus interlocutores e aos percalços dos encontros. Ambos também deixam em aberto a questão de uma possível terceira responsabilidade organizacional, capaz de abrigar seu compromisso e colocar suas investigações a serviço de algo além da academia ou da cultura pública.
O açúcar e a fome representa os frutos de um percurso longo, difícil e paciente — ou aquilo descrito por Linhart como o frequente “caminho sinuoso” da investigação. Em nosso momento de euforia tecnológica e espetáculo fascista, e quando a teoria de esquerda com demasiada facilidade reproduz a própria autoimagem onipotente do capital, este livro é um oportuno chamado metodológico para investigar as realidades concretas das experiências e lutas da classe trabalhadora, como estratégia política. De maneira oblíqua, ele também levanta uma questão que só pode ser respondida na prática: que forma organizacional poderia mediar politicamente e utilizar tal método, e como essa forma — do partido, por exemplo — poderia resgatar um marxismo que mal sobrevive num sistema universitário agora em ruínas.
* Publicado na revista Radical Philosophy 2.19 / Verão 2025, pode ser acessado em inglês aqui.