Paul Rekret, Eoin O’Cearnaigh, Patrick King
Tradução: Mateus Fiori
A revista trotskista francesa Critique Communiste publicou uma edição especial em 1978 para marcar o aniversário dos eventos de maio e junho de 1968. Essa edição apresentou uma longa entrevista com Robert Linhart, ex-líder da Union de la Jeunesse Communiste (marxiste-léniniste) (UJCML), talvez a organização mais associada ao arquétipo do estudante-intelectual maoísta, o soixante-huitard. Contudo, em vez de contribuir para a ladainha de análises quixotescas que caracterizam o período, Linhart direcionou a discussão para o que considerava mais urgente para a teoria marxista, isso é, a necessidade das investigações concretas sobre os processos de trabalho.
Algum contexto é útil para entender o que está em jogo nessa entrevista, intitulada “A Evolução dos Processos de Trabalho e a Luta de Classes”. Robert Linhart ingressou na École Normale Supérieure na Rue d’Ulm, em Paris (ENS), ápice do sistema universitário francês, em 1963. Logo se tornou um dos mais próximos “alunos-discípulos”[1] de Louis Althusser. Conforme a década avançava, ele também se tornou um frequentador regular dos seminários de Charles Bettelheim na École pratique des hautes études, sobre economia política e a construção socialista no Terceiro Mundo.[2] Linhart aprimorou suas habilidades analíticas marxistas como uma das principais forças editoriais por trás da revista Cahiers marxistes-léninistes, um verdadeiro campo de treino teórico-político para o grupo ao redor de Althusser. Após aderir ao maoísmo durante um verão trabalhando para o Ministério da Agricultura da Argélia em 1964, a intervenção de Linhart no ano seguinte foi decisiva para reafirmar a ortodoxia na Union des Étudiants Communistes (UEC).[3]Durante os três anos anteriores, este movimento de juventude se abriu mais à esquerda marxista ampla dirigida por uma tendência revisionista “italiana” dentro do Partido Comunista Francês (PCF). O anti-revisionismo prô-chines dos “Ulmards”, com o tempo, os levaram a expulsão da UEC em 1966. Grupo de cerca de cem militantes, a maioria estudantes da ENS, formaram a UJCML, com Linhart na direção, ainda naquele ano.
A UJCML ganhou destaque inicial pelos Comitês Vietnamitas de Base: organizações anti-imperialistas, formadas em novembro de 1966 e enraizadas em bairros, escolas e locais de trabalho, que popularizaram a luta das forças do Norte do Vietnã e da Frente de Libertação Nacional do Sul contra os Estados Unidos, promovendo discussões, publicando panfletos e boletins, e realizando ações de solidariedade.[4] A visita de uma delegação à China em agosto de 1967 moldou ainda mais a trajetória seguinte da UJCML e do próprio Linhart. O desenvolvimento de suas análises teóricas passou a se ancorar no conceito de “établissement”, um termo derivado da tradução francesa de um discurso da campanha das Cem Flores de Mao, sobre a integração entre os intelectuais e as massas.[5] Menos de um ano antes da eclosão de 1968, o grupo na prática abandonou a política estudantil para realizar “investigações”, ocupando empregos fabris.[6] O próprio Linhart se proletarizou (tornou-se établi) na fábrica Citroën-Choisy no outono daquele ano.[7]
No entanto, em maio de 1968, “nosso Grande Timoneiro Robert”, como descrito com sarcasmo por um ex-camarada, permaneceu à frente da UJCML, rejeitando as primeiras turbulências no Quartier Latin de Paris como uma “conspiração social-democrata, orquestrada por trotskistas, a serviço da pequena burguesia, para usurpar a legítima direção operária de luta”, chegando a expulsar sua própria esposa de uma reunião por defender a revolta estudantil.[8] À medida que tal posição se tornava insustentável, Linhart passou por uma grave crise de saúde mental, sendo hospitalizado por um longo período, no exato momento em que os protestos estudantis davam lugar às ocupações de fábricas. No rescaldo da revolta de 1968, quando a UJCML foi proibida pelo Estado junto com outras organizações de esquerda, Linhart juntou-se à Gauche prolétarienne, atuando como editor de J’Accuse, uma de suas duas revistas.
A prática do établissement continuaria durante esse período, concebida em parte como uma investigação em busca dos princípios teóricos que triunfariam ao se identificar com as aspirações e práticas dos trabalhadores e não apenas derivadas de uma doutrina, cultivando também os elementos mais radicais da classe trabalhadora francesa.[9]
Apesar dos julgamentos duros de Linhart sobre esse período de seu trabalho político na entrevista, J’Accuse foi uma publicação importante da esquerda, promovendo um jornalismo militante, mas popular, cultivando ao máximo os elos políticos formados após maio de 1968 entre intelectuais e setores operários. Seu primeiro texto editorial declarava procurar um conteúdo “orientado para a realidade, ou seja, expressando o que a imprensa silencia ou distorce. Trata-se de dizer a verdade sobre as batalhas violentas que o povo trava contra aqueles com poder neste mundo, a verdade também sobre a guerra cotidiana de baixo nível contra… ‘acidentes’ de trabalho, condições de vida, moradia popular, os golpes.” A publicação seria “popular em seus métodos”, e os correspondentes eram incentivados à “conexão física com a realidade da revolta camponesa e operária, articulando as correntes opositoras que estão transformando as diferentes camadas da sociedade francesa.”[10] O projeto de sustentar veículos viáveis de contrainformação podendo transmitir a inteligência das lutas sociais em curso segue um dos principais legados da GP (Gauche prolétarienne) sentido também nos trabalhos posteriores de Linhart.
Em “A Evolução dos Processos de Trabalho e a Luta de Classes”, Linhart descreve o estado permanente de crise da GP como uma “organização de tipo muito mais dialético”, cuja própria existência e forma estavam em perpétua questão; uma organização buscando romper com atividades projetadas quase sempre para acumular capital político para o militante, em vez de buscar as condições para a revolução. No entanto, Linhart também é crítico em relação à militância desse período por seu foco truncado no espetacular; uma visão limitada, até mesmo “patológica” da realidade prevaleceu, ele argumenta.[11] Essa visão de mundo, segundo Linhart, atinge um ponto de virada por volta de 1972, quando a GP é dissolvida e seus membros, junto ao meio mais amplo, enfrentam o retorno à “vida ordinária”. Por sua vez, Linhart retornaria ao meio acadêmico, passando a maior parte de sua carreira lecionando sociologia na Université Paris-VIII-Saint-Denis.
Em parte a luz da interpretação das lutas revolucionárias desenvolvidas durante a Revolução Cultural e no contexto da decomposição da esquerda francesa em 1976, que Linhart publica talvez seu texto mais importante, Lenin, os Camponeses, Taylor, oferecendo um relato repleto de nuncias das análises e transformações políticas dos bolcheviques em relação ao campesinato russo e aos desenvolvimentos na produção industrial.[12] Entre seus argumentos mais enriquecedores estão os que giram em torno da adoção por Lenin da gestão científica taylorista como um meio de desenvolver as forças produtivas da Rússia. Ao conceber o partido como o agente político da classe trabalhadora, a objetificação proletária por meio de um processo de trabalho burocratizado e taylorizado é justificada com base em eficiências recém-adquiridas na produção que libertariam as massas populares para participarem na direção do Estado. O recurso russo ao taylorismo, argumenta Linhart, estabeleceu as condições para uma ruptura entre um processo de trabalho autoritário e a democratização das instituições políticas.[13]
Podemos discernir nesse argumento ecos de preocupações anteriores sobre a separação entre intelectuais e trabalhadores, e sobre a divisão entre trabalho mental e manual de forma mais geral, tal como desenvolvidas dentro da UJCML e da GP. Essas questões são explicitadas na discussão de Linhart sobre os receios do campesinato junto à intelligentsia revolucionária russa, cuja adoração romantizada pelo campo logo se tornou em repulsa ao serem mal-recebidos. Este é um movimento característico do intelectual pequeno-burguês, observa Linhart, um sentimento testemunhado entre aqueles que entraram nas fábricas nos anos 1960 “com o fervor religioso de homens que tiveram a verdade absoluta revelada, e após uma experiência ou derrota difícil, abandonam seu établissement, declarando que os trabalhadores são burgueses, podres ou fascistas.”[14]
Qual foi, então, a própria resposta de Linhart à injunção de Mao para que o intelectual “descesse para olhar entre as flores” ou “se estabelecesse” entre os trabalhadores, quando uma situação revolucionária está ausente? Nesse aspecto, “A Evolução do Processo de Trabalho” explora com certa profundidade o método de “investigação”. Trata-se de um retorno ao termo empregado pela UJCML, mas, no final dos anos 1970, ainda concebido como uma operação “ao nível de trincheira”, ainda établi, por assim dizer, mas realizado por meio de um trabalho acadêmico que busca entender as transformações contemporâneas nas condições de trabalho. As estratégias, experiências e retrocessos do établissement poderiam levar a uma apreensão mais adequada da organização e das sociabilidades no local de trabalho.[15]
Linhart apresenta uma linha dupla de raciocínio para indicar a urgência desse método, e tentaremos expor seu funcionamento aqui para termos uma ideia de como ele funciona. Primeiro, o capital opera com uma capacidade cada vez mais sofisticada de obscurecer a realidade, restringir ou manipular o conhecimento sobre a produção. Segundo, a própria produção e circulação são complexificadas à medida que a terceirização e o subcontrato expandem esses processos com cada vez mais, enquanto as divisões e diferenciações do trabalho se tornam cada vez mais intricadas e estratificadas. O que pode parecer, a um observador externo, uma fábrica ou empresa discreta, Linhart sugere, pode envolver um conjunto inteiro de pequenos subcontratantes operando em diversos locais com condições de trabalho bastante díspares e operações muito diferentes. Deixar de compreender isso significa manter um ponto de vista ancorado no que permanecem, em muitos aspectos, “seções artesanais” da classe trabalhadora em determinados setores – siderurgia, produção automotiva, fabricação de cimento… Isso é uma forma de ideologia, como Linhart a vê, na medida em que exclui de sua referência a “teia de aranha” do trabalho fragmentado, algumas vezes “nuclear”, outras “subalterno”, que o compõe. É com base nisso que o conhecimento coletado dos trabalhadores é essencial para adquirir um entendimento crucial e sistemático do “todo” dos processos específicos de produção na atualidade. Coerente com sua rejeição da romantização da classe trabalhadora, Linhart insiste que o conhecimento dos trabalhadores é fragmentado e parcial, embora também profundo.[16]A tarefa da investigação é, portanto, coletar, por meio de diálogo e participação, esse estado fragmentado de memória coletiva e testemunho oral em apoio a uma compreensão sistemática do todo.
As linhas investigativas de Linhart combinam insights específicos de esforços contemporâneos para desenvolver uma prática de investigação e “co-pesquisa” de trabalhadores na Itália, como a atenção às subjetividades dos trabalhadores e às “fraturas” introduzidas na composição de classe por circuitos de migração e pela aplicação variada de hierarquias de emprego. Estudos recentes traçaram a difusão do operaismo italiano na França, particularmente através da publicação de artigos traduzidos da Quaderni Rossi na coletânea de 1968 da Maspero, Luttes ouvrières et capitalisme d’aujourd’hui, bem como da influência da forma investigativa – como coleta de fatos, entrevistas, panfletos coletivos ou questionários – sobre grupos de extrema esquerda imersos nas lutas sociais do período.[17] A elaboração de Linhart sobre sua abordagem de investigação na entrevista de 1978 permite ver suas ressonâncias com figuras como Romano Alquati, que enfatizou a necessidade de relações estreitas entre um “forasteiro” com laços profundos com “gente de dentro” em um determinado local de trabalho. Quando Alquati ingressou na Olivetti no início dos anos 1960, ele contava com contatos com militantes locais do Partido Socialista Italiano para fornecer sua experiência e assistência. Alquati fundamentava suas inchieste em discussões com os próprios trabalhadores, extraindo hipóteses e pistas que interagiam com as lutas locais e incorporavam camadas mais amplas de trabalhadores em diferentes plantas e classificações de empregos.[18]
De maneira semelhante, a introdução cuidadosa de Linhart ao problema do “centro/periferia” no sistema mundial, aplicado à diferenciação das forças de trabalho em um complexo produtivo, também se aproxima das pesquisas conduzidas por Ferruccio Gambino e outros na década de 1970 sobre como a “mobilidade da força de trabalho” e a “mobilidade do capital” constituem “aspectos complementares da fragmentação do trabalho”, endurecendo formas de segmentação e reduzindo as aberturas para a organização operária.[19] Além disso, a insistência de Linhart de que a introdução de novas tecnologias nas relações de trabalho sempre envolve um reequilíbrio do nexo entre poder capitalista, integração e insubordinação dos trabalhadores ressoa com as críticas de Raniero Panzieri às distorções em torno das visões marxistas sobre desenvolvimento tecnológico, divisão do trabalho e controle operário.[20]
“A Evolução dos Processos de Trabalho e a Luta de Classes” fornece uma série de exemplos de como poderia funcionar uma transição de fragmentos para sistemas, embora devemos observar que nela não é adotada a forma literária de narrativa episódica, em primeira pessoa, que Linhart utiliza em Greve na Fábrica, seu relato do tempo em que foi établi na Citroën, ou em O Açucar e a Fome, sua análise da economia do cultivo de cana-de-açúcar no interior de Pernambuco.[21]
Seu texto escrito no Brasil oferece um rico relato de suas viagens pelo nordeste para examinar como uma monocultura açucareira industrializada elimina pequenos produtores, integra produtores locais aos mercados globais e às suas relações de classe. Seu mosaico de diálogos é amplo, estendendo-se a crianças (muitas vezes trabalhadores remunerados), um presidente sindical, políticos locais, engenheiros e fazendeiros. Trata-se de uma abordagem que opera em diferentes níveis de abstração e, ao “se estabelecer” dessa maneira, busca evitar uma reificação de conceitos marxistas, partindo, em vez disso, da experiência vivida. Em outras palavras, é um meio de análise que oferece recursos para superar a contradição aparente entre conhecimento objetivo e perspectiva de classe.[22]
Pouco tempo depois da publicação de “A Evolução dos Processos de Trabalho e a Luta de Classes”, Linhart retirou-se em geral da vida pública após uma tentativa de suicídio. Não abandonou por inteiro, entretanto, seu compromisso com investigações militantes nas fases posteriores de sua trajetória, porém manteve esse compromisso por outros canais. [23] Como ele observou de forma perspicaz em uma conversa com Charles Bettelheim e a revista Communisme em 1977, existe uma “fantástica desproporção entre certos debates teóricos sobre o marxismo e a capacidade de compreender a luta de classes concreta hoje.”[24]Linhart continuou a examinar essa luta em seus diferentes níveis: das transformações internacionais no processo de acumulação, à crescente mobilidade das empresas capitalistas e à multiplicação de subcontratos; do papel do Estado na regulação social e na legislação trabalhista, às diferentes abordagens estratégicas e acomodações dos sindicatos; às estratégias de exploração, divisão espacial e resistência que compõem o antagonismo cotidiano da jornada de trabalho.[25] Ele contribuiu para os debates vibrantes na França no início da década de 1980 e com a chegada do governo Mitterrand ao poder, sobre o futuro do movimento sindical, a destruição das culturas de chão de fábrica e as ofuscações ideológicas em torno das Leis Auroux e da formulação de novos esquemas de “participação dos empregados”[26] baseados na produção enxuta. Linhart coescreveu relatórios com outros pesquisadores e ativistas trabalhistas envolvidos com os principais centros sindicais – incluindo sua irmã, Danièle Linhart, uma socióloga prolífica das mudanças nos padrões de subjetividade do trabalho e nas técnicas gerenciais centradas no redirecionamento da autonomia. Por meio de redes e think tanks como a Association d’enquête et de recherche sur l’organisation du travail (AEROT) e o Centre pour la recherche économique et ses applications (CEPREMAP), ele estabeleceu conexões com outras correntes de análise marxista do processo de trabalho, reformulando os temas e abordagens da sociologie du travail em contextos de crise e reestruturação.[27] Ao longo de toda essa atividade, abordou essas análises científicas das tendências do desenvolvimento capitalista, da gestão e controle da força de trabalho e da organização no local de trabalho a partir da “perspectiva da classe trabalhadora… entre os agentes do processo de produção.”[28]
Nos textos reunidos pela Revista Viewpoint na coletânea “Robert Linhart e o percorrer dos circuitos de inquérito”, Linhart desafia periodizações familiares sobre fordismo e pós-fordismo, taylorismo e pós-taylorismo, globalização e outras amplas caracterizações sobre a mudança na natureza do trabalho. Ele aborda características críticas da economia política contemporânea e do movimento trabalhista: a redistribuição e manutenção de formas de exploração por meio de terceirização, arranjos legais obscuros de emprego flexível e deslocalização em muitas indústrias; a interação entre autonomia e subordinação nas relações de trabalho; a vigilância gerencial, o estresse e a captura de conhecimento em locais de trabalho parcialmente automatizados; e as perspectivas de militância trabalhista e organização sindical entre forças de trabalho fragmentadas ou segmentadas em grandes concentrações de produção e logística, em pequenas oficinas de baixos salários e em bases regionais ou geográficas.[29] Entre os exemplos incluídos estão investigações realizadas em complexos petroquímicos ao redor do Étang de Berre;[30] um relatório sobre o desenvolvimento da indústria intensiva em capital e os dilemas da transferência de tecnologia na Argélia, a partir de uma visita ao país em meados da década de 1970, abordando questões logísticas e políticas levantadas pelas relações de dependência e subdesenvolvimento na cadeia de valor global;[31] visões históricas do taylorismo e considerações sobre a metodologia da enquête; uma investigação conduzida entre trabalhadores hospitalares durante a transição para a jornada de trabalho de 35 horas na França, rastreando os efeitos contraditórios da informatização e padronização no processo de trabalho no campo médico; e análises dos efeitos estruturais que a imigração, o imperialismo e a racialização tiveram nas divisões entre o proletariado na França. Linhart destacou de forma permanente a importância de os militantes se imergirem nessas situações de investigação e luta.
Conheça o dossiê “Robert Linhart e o percorrer dos circuitos de inquérito”, do site Viewpoint.
Paul Rekret ensina Teoria Política e Cultural na Richmond American University, em Londres.
Eoin O’Cearnaigh gerencia uma rede de preservação sonora para a British Library. Sua pesquisa de doutorado examinou a política da autonomia da classe trabalhadora por meio de uma história das lutas industriais na Ford Motor Company, no Reino Unido.
Patrick King é membro do coletivo editorial da Viewpoint. Ele mora em Seattle.
[1] Louis Althusser, The Future Lasts a Long Time and The Facts, eds. Olivier Corpet e Yann Moulier Boutang, trans. Richard Veasey (London: Chatto & Windus, 1993), 221. Ver também Julian Bourg, “The Red Guards of Paris: French Student Maoism of the 1960s,” History of European Ideas 31, no. 4 (2005): 472-490. Em uma entrevista com Peter Hallward para o projeto Cahiers d’analyse, que resultou nos volumes Concept and Form (London: Verso, 2012), Etienne Balibar detalha a seriedade e profundidade com que Linhart abordava a história da prática teórica e política marxista desde muito cedo: “Linhart estava intoxicado com política e leninismo. Um pouco mais jovem que nós, ele marcou sua entrada em nosso grupo (o Cercle d’Ulm) de forma espetacular, mostrando que conhecia quase toda a obra de Lenin de cor. Linhart mais ou menos se identificava com Lenin. Ele leu os trinta volumes de suas obras completas e os memorizou.”
[2] François Denord e Xavier Zunigo, “‘Révolutionnairement vôtre.’ Économie marxiste, militantisme intellectuel et expertise politique chez Charles Bettelheim,” Actes de la recherche en sciences sociales 158, no. 3 (2005): 8-29.
[3] Virginie Linhart, Le Jour Où Mon Père S’est Tu (Paris: Seuil, 2008). Para alguns dos escritos de Linhart durante esse período (incluindo um resumo de sua visita à Argélia), ver Robert Linhart, “On the Current Phase of Class Struggle in Algeria,” trans. Peter Korotaev, Cosmonaut Magazine, novembro de 2021; e um texto de 1966 que apareceu primeiro na revista de Charles Bettelheim, Études de planification socialiste, “For a Concrete Theory of Transition: The Political Practice of the Bolsheviks in Power,” trans. David Broder, Rethinking Marxism 33, no. 4 (2021): 476-511.
[4] Ver Ludivine Bantigny, “Hors frontières. Quelques expériences d’internationalisme en France, 1966-1968,” Monde(s)11, no. 1 (2017): 139-160; Kristin Ross, May ‘68 and Its Afterlives (Chicago: University of Chicago Press, 2002), 90-95; Nicolas Pas, “‘Six Heures pour le Vietnam’: Histoire des Comités Vietnam français 1965-1968,” Revue historique 302, no. 1 (janeiro-março 2000): 157-185.
[5] Ver Mao Zedong, “Speech at the Chinese Communist Party’s National Conference on Propaganda Work” (1957), Selected Works of Mao Tse-tung, Vol. 5.
[6] UJCML, “On Établissement” (1968), trans. Jason E. Smith, Viewpoint Magazine 3 (2013).
[7] Robert Linhart, The Assembly Line, trans. Margaret Crosland (Amherst: The University of Massachusetts Press, 1981). Para uma experiência diferente de trabalho em uma fábrica de automóveis, ver Fabienne Lauret, L’envers de Flins. Une féministe révolutionnaire à l’atelier (Paris: Syllepse, 2018).
[8] Jean-Pierre Le Dantec, Les Dangers du Soleil (Paris: Les presses d’aujourd’hui, 1978), 112; Virginie Linhart, Volontaires pour l’Usine: Vies d’Établis (1967-1977) (Paris: Editions du Seuil, 2010), 38-39.
[9] Para uma excelente visão geral em inglês, ver Jason E. Smith, “From Établissement to Lip: On the Turns Taken by French Maoism,” Viewpoint Magazine 3 (2013), e Donald Reid, “Etablissement: Working in the Factory to Make Revolution in France,” Radical History Review 88 (inverno 2004): 83-111. Para outros relatos, ver Marnix Dressen, Les établis, la chaîne et le syndicat. Évolution des pratiques, mythes et croyances d’une population d’établis maoïstes 1968-1982 (Paris: L’Harmattan, 2000); os artigos reunidos na edição temática de Les Temps Modernes, “Ouvriers volontaires: les années 68, l’«établissement» en usine,” nos. 684-685 (2015); e Laure Fleury, Julie Pagis e Karel Yon, “‘Au service de la classe ouvrière’: quand les militants s’établissent en usine,” em Olivier Fillieule, Sophie Béroud, Camille Masclet e Isabelle Sommier, com o coletivo Sombrero (eds.), Changer le monde, changer sa vie. Enquête sur les militantes et les militants des années 1968 en France (Paris: Actes Sud, 2018), 453-484.
[10] Ver F.M. Samuelson, Il etait une fois Libé (Paris: Seuil, 1979), 100-101. Ver também Michael Witt, “On and Under Communication,” em A Companion to Jean-Luc Godard, ed. T. Conley e T. J. Kline (Hoboken-Oxford: Wiley-Blackwell, 2014), 318-350, para mais informações sobre o papel de Linhart em J’Accuse e seu impacto na cinematografia de Jean Luc-Godard.
[11] Para uma versão anterior, bastante amarga e implacável dessa linha de crítica contra o “gauchisme,” ver o ataque de Linhart ao texto de 1972 de Deleuze e Guattari, Anti-Oedipus: Robert Linhart, “Gauchisme à vendre?,” Libération, 7 de dezembro de 1974, 12, 9.
[12] Robert Linhart, Lénine, les paysans, Taylor (Paris: Seuil, 1976). Análises raras em inglês são oferecidas por Dimitris Papafotiou e Panagiotis Sotiris em “Rethinking Transition: Bettelheim and Linhart on the New Economic Policy,” Rethinking Marxism 33, no. 4 (2021): 512-532 e Alberto Toscano, “Seeing Socialism: On the Aesthetics of the Economy, Production and Plan,” em Economy: Art, Production and the Subject in the 21st Century, ed. Angela Dimitrakaki e Kirsten Lloyd (Liverpool: University of Liverpool Press, 2015).
[13] Linhart, Lénine, les paysans, Taylor, 91-94.
[14] Linhart, Lénine, les paysans, Taylor, 60; vale comparar com o próprio trabalho de Linhart sobre o campesinato brasileiro em Le Sucre et la Faim. Enquête dans les régions sucrières du Nord-Est brésilien (Paris: Minuit, 1980).
[15] Nesse esforço, o trabalho de Linhart se sobrepõe ao de outro ex-établi, Nicolas Hatzfeld: ver sua reflexão “De l’action à la recherche, l’usine en reconnaissances,” Genèses 77, no. 4 (2009): 152-165; bem como as abordagens etnográficas de Michel Pialoux e Stéphane Beaud. Ver Stéphane Beaud e Michel Pialoux, Retour sur la condition ouvrière. Enquête aux usines Peugeot de Sochaux-Montbéliard (Paris: La Découverte, 2012 [1999]); Michel Pialoux e Christian Corouge, Résister à la chaine. Dialogue entre un ouvrier de Peugeot et un sociologue (Marseille: Agone, 2011); e Michel Pialoux, Le temps d’écouter. Enquêtes sur les métamorphoses de la classe ouvrière, ed. Paul Pasquali (Paris, Raisons d’agir, 2019).
[16] Ver Enes Kezluca, “Theoretical Acupunctures: From Althusser to the Post-Althusserian Marxism of Robert Linhart,” Rethinking Marxism 33, no. 4 (2021): 533-562.
[17] Veja o excelente estudo de Marcelo Hoffman, Militant Acts: The Role of Investigations in Political Struggles (Albany: SUNY Press, 2016). Hoffman foca no artigo de Dario Lanzardo publicado na Quaderni Rossi, traduzido para o volume da Maspero como “Marx et l’enquête ouvrière,” em Quaderni Rossi, Luttes ouvrières et capitalisme d’aujourd’hui, trans. Nicole Rouzet (Paris: Maspero, 1968), 109-31.
[18] Veja Romano Alquati, “Organic Composition of Capital and Labor-Power at Olivetti (1961),” trans. Steve Wright, Viewpoint Magazine 3 (2013), e o comentário histórico de Steve Wright em Storming Heaving: Class Composition and Struggle in Italian Autonomist Marxism (London: Pluto Press, 2002), 54. As notas metodológicas de Alquati em Per fare conricerca: Teoria e metodo di una pratica sovversiva (Rome: DeriveApprodi, 2022 [1993]) também merecem ser revisadas. Um trecho foi traduzido para a indispensável seção de 2019 da South Atlantic Quarterly sobre investigação militante, editada por Matteo Polleri. Veja Romano Alquati, “Co-research and Worker’s Inquiry,” South Atlantic Quarterly 118, no. 2 (abril de 2019): 470-78.
[19] Ferruccio Gambino, “Class Composition and US Direct Investments Abroad,” Zerowork 3 (1974). Veja também os comentários de Gambino sobre o assunto em sua entrevista com Dylan Davis, “The Revolt of Living Labor,” Viewpoint Magazine, novembro de 2019.
[20] Veja Raniero Panzieri, “The Capitalist Use of Machinery: Marx Versus the ‘Objectivists,’” trans. Quintin Hoare, em Outlines of a Critique of Technology, ed. Phil Slater (London: Ink Links, 1980), 44-68.
[21] Robert Linhart, The Assembly Line e Le Sucre et la Faim. Para um comentário útil sobre este último trabalho, veja Marcelo Hoffman, “A French Maoist Experience in Brazil. Robert Linhart’s Investigation of Sugarcane Workers in Pernambuco,” Cahiers du GRM 16 (2020). Veja também Robert Linhart, “Dette, l’ouvrier et le paysan au brésil,” CEPREMAP Working Papers, no. 8903 (1989).
[22] Sobre este ponto, veja Kezluca, “Theoretical Acupunctures: From Althusser to the Post-Althusserian Marxism of Robert Linhart.” Veja também os incisivos comentários de Louis Althusser sobre “análise concreta” e investigação dos trabalhadores em What is to Be Done?, ed. e trans. G.M. Goshgarian (London: Polity Press, 2020), 1-24.
[23] Com exceção de “Greve na Fábrica”, pouco de sua obra foi traduzida para o inglês, com algumas exceções: veja Robert Linhart, “Western ‘Dissidence’ Ideology and the Protection of the Bourgeois Order,” trans. Patrick Camiller, Rab-Rab 5 (2019): 273. A publicação oridinal do texto esta em Pouvoir et opposition dans les sociétés postrévolutionnaires, ed. Rossana Rossanda (Paris: Seuil, 1978), e na tradução inglesa desse volume em 1979. Outros aspectos do programa de pesquisa de Linhart sobre as figuras do trabalho e modos de produção na Europa Oriental podem ser encontrados em Pascal Bonitzer, François Géré, Robert Linhart, Jean Narboni e Jacques Rancière, “Table ronde: L’homme de marbre et de celluloïd,” Cahiers du cinéma 298 (março de 1979): 16-29.
[24] Robert Linhart e Charles Bettelheim, “Sur le marxisme et le léninisme. Débat avec Charles Bettelheim et Robert Linhart,” Communisme 27-28 (março de 1977); republicado em Revue Période, janeiro de 2019. A trajetória pós-maoísta de Linhart convida à comparação com a de Sylvain Lazarus e o desenvolvimento de uma prática de investigação na Organisation politique: veja Sylvain Lazarus, “Workers’ Anthropology and Factory Inquiry: Inventory and Problematics” (2001), trans. Asad Haider e Patrick King, Viewpoint Magazine, janeiro de 2019.
[25] Veja Etienne Balibar, The Philosophy of Marx, trans. Chris Turner (London: Verso, 2007 [1995]), 94-97; e Michel Freyssenet, La division capitaliste du travail (Paris: Savelli, 1977).
[26] Veja Robert Linhart e Danièle Linhart, “Naissance d’un consensus,” CEPREMAP Working Papers, no. 8515 (1985), e Danièle Linhart, “Managerial Innovations: Some Main Tendencies,” AI & Society 8 (1994): 285-291. Para uma visão geral de alguns desses debates, veja Jean Lojkine, “The Decomposition and Recomposition of the Working Class,” em The French Workers’ Movement: Economic Crisis and Political Change, ed. Mark Kesselman, trans. Edouardo Diaz, Arthur Goldhammer e Richard Shryock (London: Routledge, 1984), 119-31; os artigos reunidos no International Journal of Sociology 12, no. 4 (inverno 1982/1983); Alain Lipietz, “Three Crises: The Metamorphoses of Capitalism and the Labour Movement,” em Capitalist Development and Crisis Theory: Accumulation, Regulation, and Spatial Restructuring, ed. M. Gottdiener e Nicos Komninos (London: Palgrave Macmillan, 1989), 59-95; Beaud e Pialoux, Retour sur la condition ouvrière; e Jean-Pierre Durand e Nicolas Hatzfeld, Living Labour: Life on the Line at Peugeot France, trans. Dafydd Roberts (London: Palgrave Macmillan, 2003).
[27] Veja Michael Rose, Servants of Post-Industrial Power? Sociologie du Travail in Modern France (London: Macmillan Press, 1979); e a entrevista com Danièle Linhart em CISG no. 11 (junho de 2013): 37-54. As críticas contundentes de Linhart aos métodos de manufatura enxuta baseados em círculos de qualidade ou conceitos de trabalho em equipe coincidem com o trabalho indispensável, intersetorial e intersindical, feito nos EUA pela Labor Notes.
[28] Veja “Taylorism Between the Two Wars” (1983), neste dossiê.
[29] Para uma análise mais aprofundada, veja Danièle Linhart e Robert Linhart, “Les ambiguïtés de la modernisation. Le cas du juste-à-temps,” Réseaux 13, no. 69 (1995): 45-69; Danièle Linhart, Robert Linhart e Anna Malan, “Syndicats et organisation du travail: un rendez-vous manqué,” Sociologie et sociétés 30, no. 2 (1995): 175–188; Danièle Linhart, Robert Linhart e Anna Malan, “Syndicats et organisation du travail: un jeu de cache-cache?,” Travail et Emploi no. 80 (setembro de 1999): 109-122. Um novo texto de Robert Linhart foi recentemente publicado em Crisis and Critique: veja Robert Linhart, “Immigration: A Major Issue in Politics Today,” trans. Agon Hamza, Crisis and Critique 9, no. 2 (novembro de 2022): 267-68. Também deve-se notar que Linhart encontrou nesse escopo panorâmico a capacidade de revelar tendências essenciais de acumulação de capital e disciplina de trabalho: “Sempre me surpreendo ao descobrir a unidade dos métodos de gestão capitalista, desde os centros mais ricos até as zonas dependentes mais pobres. Como o sistema consegue penetrar tão longe e com tanta precisão?” Linhart, Le Sucre et la Faim, 48.
[30] Dominique Pouchin, “L’Éclatement,” Le Monde, 7 de março de 1980; e compare as contradições descritas por Linhart no cluster petroquímico com aquelas descritas pelos operários de Porto Marghera na Itália durante um período semelhante. Deve-se notar também que os trabalhadores de refinarias de petróleo e petroquímicas na França realizaram greves prolongadas de setembro a novembro de 2022, causando reduções significativas na capacidade geral de refino do país no contexto de uma crise europeia de energia e custo de vida mais ampla, com o governo intervindo para encerrar greves em determinados depósitos.
[31] Veja os comentários de Linhart na introdução de Lénine, les paysans, Taylor, onde ele observa que um balanço da industrialização na URSS durante a década de 1920 pode fornecer elementos importantes para compreender a relação entre a introdução de novos métodos de produção e a construção socialista nos países do Terceiro Mundo após a descolonização e a crise econômica global em meados da década de 1970. (Linhart, Lénine, les paysans, Taylor, 18).