Berlim nunca esquece de lembrar a você sobre o que ocorreu ali. Vários museus examinam o totalitarismo e o Holocausto; o Memorial aos Judeus Assassinados da Europa ocupa um quarteirão inteiro da cidade. De certa forma, porém, essas estruturas maiores são menos relevantes. Os memoriais que te pegam desprevenido – o monumento aos livros queimados, que está literalmente no subterrâneo, e os milhares de Stolpersteine, ou “pedras de tropeço”, embutidas nas calçadas para recordar indivíduos judeus, sinti, ciganos, homossexuais, portadores de doenças mentais e outros assassinados pelos nazistas – revela a abrangência dos males já cometidos neste local. No início de novembro, quando estava a caminho da casa de um amigo, deparei-me com a placa de informações que marca o ponto do bunker de Hitler. Havia passado por lá muitas vezes antes. Parece um quadro de avisos do bairro, mas conta a história dos últimos dias do Führer.
No final da década de noventa e início dos anos dois mil, quando foram concebidos e instalados inúmeros desses memoriais, eu visitava Berlim com frequência. Era emocionante assistir ao culto da memória ganhando corpo. Aqui estava um país, ou pelo menos uma cidade, fazendo o que a maioria das culturas não conseguem: olhar para seus próprios crimes, seu pior eu. Mas, em algum momento, o empenho começou a parecer estático, envidraçado, como se fosse um esforço não só para lembrar a história, mas também para garantir que apenas esta versão específica fosse lembrada – e somente dessa maneira. Isso é verdade no sentido físico, visual. Muitos deles usam vidro: o Reichstag, um prédio quase destruído durante a era nazista e reconstruído meio século depois, agora é coroado por uma cúpula de vidro; o memorial dos livros queimados subsiste sob vidro; divisórias e painéis envidraçados organizam a impressionante, antes caótica coleção chamada “Topografia do Terror”. Como me disse Candice Breitz, uma artista judia sul-africana, que mora em Berlim: “As boas intenções que entraram em jogo nos anos oitenta muito frequentemente se solidificaram em dogma”.
Entre os poucos espaços, onde a representação da memória não é definida em uma aparente permanência, estão algumas das galerias no novo prédio do Museu Judaico, concluído em 1999. Quando o visitei, no início de novembro, uma ala no térreo mostrava uma instalação de vídeo intitulada “Ensaio do Espetáculo dos Espectros”. Ele era ambientado no Kibbutz Be’eri, a comunidade onde, em 7 de outubro, mais de noventa pessoas foram mortas pelo Hamas – quase uma, em cada dez habitantes – durante seu ataque a Israel, que acabou ceifando a vida de mais de mil moradores. No filme, os residentes de Be’eri revezam-se, recitando as linhas de um verso de um dos membros da comunidade, o poeta Anadad Eldan: “… do pântano entre as costelas / ela, que tinha submergido em você surgiu / e você é constrangido a não gritar / caçando as formas que correm do lado de fora”. A gravação dos artistas israelenses residentes em Berlim Nir Evron e Omer Krieger, foi concluído há nove anos. Abre com uma vista aérea da região, a Faixa de Gaza visível. Depois aproxima-se, sem pressa, das casas do kibbutz, algumas das quais pareciam bunkers. Não tenho certeza o que os artistas e o poeta queriam de início transmitir; agora, a instalação parecia um trabalho de luto por Be’eri. (Eldan, que tem quase cem anos, sobreviveu ao ataque do Hamas.)
No corredor via-se um dos espaços que o arquiteto Daniel Libeskind, autor do projeto do museu, chamou de “vazios” – eixos de ar que atravessam o prédio, simbolizando a ausência de judeus na Alemanha ao longo das gerações. Lá, uma instalação do artista israelense Menashe Kadishman, intitulada “Folhas Caídas”, consiste em mais de dez mil conjuntos de ferro com olhos e bocas recortadas nelas, como moldes de desenhos de crianças gritando. Quando você pisa sobre os rostos, eles batem, com o barulho de correntes, ou como a alça de um rifle. Kadishman dedicou o trabalho às vítimas do Holocausto e a outros inocentes da guerra e da violência. Não sei o que ele, que morreu em 2015, teria dito sobre o conflito atual. Mas, depois de passar do vídeo assombroso do Kibbutz Be’eri para os rostos de ferro tilintando, pensei nos milhares de palestinos de Gaza exterminados, em retaliação aos judeus mortos pelo Hamas. Então refleti que, se declarasse isso em público na Alemanha, poderia ter problemas.
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A 9 de novembro, para marcar o octogésimo quinto aniversário do Kristallnacht, uma Estrela de Davi, sob a frase “Nie Wieder Ist Jetzt!” – “Nunca Mais É Agora!” – foi projetada em azul e branco no Portão de Brandemburgo, em Berlim. Naquele dia, o Bundestag analisava uma proposta intitulada “Cumprindo a Responsabilidade Histórica: Protegendo a Vida Judaica na Alemanha”, que continha mais de cinquenta medidas destinadas a combater o antissemitismo no país, incluindo deportar imigrantes que cometem esse tipo de crime; intensificar as atividades dirigidas contra o movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (B.D.S.); apoiar artistas judeus “cujo trabalho é crítico ao antissemitismo”; implementar uma definição particular de antissemitismo em decisões de financiamento e policiamento; e fortalecer a cooperação entre as forças armadas alemãs e israelenses. Em declarações anteriores, o vice-chanceler alemão, Robert Habeck, membro do Partido Verde, disse que os muçulmanos na Alemanha deveriam “se distanciar de forma explicita do antissemitismo, para não minarem seu próprio direito à tolerância”.
Não é de hoje que a Alemanha regula as formas como o Holocausto é lembrado e discutido. Em 2008, quando a então chanceler Angela Merkel discursou perante o Knesset, no sexagésimo aniversário da fundação do Estado de Israel, ela enfatizou a responsabilidade especial do país, não apenas em preservar a memória do Holocausto como uma atrocidade histórica única, mas também pela segurança de Israel. Isso, ela afirmou, fazia parte da Staatsräson da Alemanha – a razão de ser do Estado. Esse sentimento parece repetir-se, ali, sempre que o tema de Israel, judeus ou antissemitismo surge, incluindo nas observações de Habeck. “A frase ‘a segurança de Israel integra a Staatsräson da Alemanha’ nunca foi um enunciado vazio”, disse ele. “E jamais será.”
Ao mesmo tempo, ocorreu um debate obscuro, mas com desdobramentos bizarros, sobre o significado de antissemitismo. Em 2016, a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (I.H.R.A.), uma organização intergovernamental, adotou a seguinte definição: “Antissemitismo é uma certa percepção dos judeus, que pode ser expressa como ódio a eles. Manifestações retóricas e físicas de antissemitismo são direcionadas a indivíduos judeus ou não judeus e/ou suas propriedades, a instituições da comunidade judaica e instalações religiosas judaicas.” Esta acepção foi acompanhada por onze exemplos, que começavam com o óbvio – pedir ou justificar o assassinato de judeus – mas também incluíam “afirmar que a existência do Estado de Israel é um empreendimento racista” e “comparar a política israelense contemporânea à dos nazistas.”
Este conceito não tinha força legal, mas exerceu uma influência extraordinária. Vinte e cinco membros da União Europeia e o Departamento de Estado dos Estados Unidos endossaram ou adotaram os termos da I.H.R.A. Em 2019, o presidente Donald Trump assinou um ato executivo prevendo a retenção de fundos federais das universidades em que os alunos não são protegidos contra o antissemitismo, conforme definido pela I.H.R.A. Em 5 de dezembro deste ano, a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou uma resolução declaratória, condenando o antissemitismo conforme definido pela I.H.R.A.; ela foi proposta por dois deputados republicanos judeus e foi contestada por vários democratas judeus importantes, incluindo Jerry Nadler, de Nova York.
Em 2020, um grupo de acadêmicos propôs uma definição alternativa de antissemitismo, a Declaração de Jerusalém. Define-o como “discriminação, preconceito, hostilidade ou violência contra judeus enquanto judeus (ou instituições judaicas enquanto tal)” e fornece exemplos que ajudam a distinguir declarações e ações anti-Israel de declarações e ações antissemitas. Mas, embora alguns dos principais pesquisadores do Holocausto tenham participado da sua redação, ela foi ofuscada pela crescente influência daquela estabelecia pela I.H.R.A. Em 2021, a Comissão Europeia publicou um manual “de uso prático” da sua acepção, recomendando, entre outras coisas, usá-la no treinamento de policiais para reconhecerem crimes de ódio, além de propor a criação do cargo de procurador do Estado, coordenador ou comissário para o antissemitismo.
A Alemanha já havia implementado essa sugestão específica. Em 2018, o país concenbeu o Gabinete do Comissário Federal do Governo para a Vida Judaica na Alemanha e o Combate ao Antissemitismo, uma vasta rede de burocracia que inclui comissários nos níveis estadual e municipal, alguns dos quais trabalham nos escritórios dos promotores ou nas delegacias de polícia. Desde então, a Alemanha relatou um aumento quase ininterrupto no número de incidentes antissemitas: mais de dois mil em 2019, acima de três mil em 2021. E, segundo um grupo de monitoramento, chocantes novecentos e noventa e quatro no mês seguinte ao ataque do Hamas. As estatísticas, porém, misturam o que os alemães chamam de Israelbezogener Antisemitismus – antissemitismo relacionado a Israel, como no caso de crítica às políticas do governo israelense – com ataques brutais, a exemplo do tiroteio em uma sinagoga, em Halle, em 2019, que matou duas pessoas; tiros disparados contra a casa de um ex-rabino, em Essen, em 2022; e dois coquetéis molotov jogados em uma sinagoga de Berlim neste outono. O número de ocorrências envolvendo violência, de fato, permaneceu relativamente estável e não subiu após a agressão do Hamas.
Agora há dezenas de comissários de combate ao antissemitismo em toda a Alemanha. Eles não têm uma descrição de trabalho especifica, nem arcabouço legal, mas grande parte parece consistir em envergonhar em público aqueles que eles consideram antissemitas. Não raro, por “desingularizar o Holocausto” ou por criticar Israel. Quase nenhum desses comissários é judeu. Na verdade, a proporção de judeus entre seus alvos é sem dúvida maior. Estes incluíram o sociólogo germano-israelense Moshe Zuckermann, sob suspeição, por apoiar o movimento B.D.S., assim como o fotógrafo judeu sul-africano Adam Broomberg.
Em 2019, o Bundestag aprovou uma resolução condenando o B.D.S. como antissemita e recomendando a retenção de financiamento estatal para eventos e instituições ligadas à iniciativa. A sua cronologia é reveladora. Uma versão foi introduzida primeiro pelo AfD, o partido etnonacionalista de extrema-direita e eurocético, então recém-chegado ao parlamento alemão. Políticos mainstream rejeitaram a resolução porque ela vinha do AfD, mas, com possível receio de serem vistos como fracos no combate ao antissemitismo, introduziram logo em seguida uma proposta similar por conta própria. A deliberação seria imbatível por associar o B.D.S. à “fase mais terrível da história alemã”. Para o AfD, cujos líderes fizeram declarações antissemitas explicitas e endossaram a retomada da linguagem nacionalista da era nazista, o espectro do antissemitismo é um instrumento político perfeito. Eles utilizam-no de forma cínica, como passaporte para o primeiro plano político, assim como uma arma que pode ser empregada contra imigrantes muçulmanos.
O movimento B.D.S., inspirado naquele nascido contra o apartheid sul-africano, busca usar pressão econômica para garantir direitos iguais para os palestinos em Israel, acabar com a ocupação e promover o retorno dos refugiados. Muitos consideram-no problemático, por não afirmar o direito de existência do Estado de Israel – e, de fato, alguns adeptos do B.D.S. vislumbram desfazer o projeto sionista como um todo. Ainda assim, pode-se argumentar que associar um movimento de boicote não violento, cujos apoiadores posicionaram-se de maneira explícita, como alternativa à luta armada, ao Holocausto, constituiria a própria definição de relativismo do Holocausto. Mas, de acordo com a lógica da política de memória alemã, porque o B.D.S. é direcionado contra os judeus – embora vários dos seus apoiadores também sejam judeus -, ele é antissemita. Seria também pertinente argumentar que a conexão inerente de judeus com o Estado de Israel é antissemita, mesmo que se enquadre na definição de antissemitismo da I.H.R.A. Afinal, dado o envolvimento do AfD e a sequência de medidas tomadas, principalmente, contra judeus e pessoas não-brancas, seria cabível imaginar que tal alegação ganharia peso. Contudo, não é essa a realidade alemã.
A Lei Fundamental da Alemanha, ao contrário da Constituição dos Estados Unidos, mas como as Cartas Magnas de muitos outros países europeus, não foi interpretada como fornecedora de uma garantia absoluta de liberdade de expressão. No entanto, ela promete essa liberdade não apenas na imprensa, mas nas artes e ciências, pesquisa e ensino. É possível, caso a resolução do B.D.S. torne-se lei, que seja considerada inconstitucional. Mas isso não foi posto à prova. Parte do que tornou a resolução poderosa, em particular, foi a generosidade costumeira do Estado alemão: quase todos os museus, exposições, conferências, festivais e outros eventos culturais recebem financiamento do governo federal, estadual ou municipal. “Isso criou um ambiente macartista”, disse-me Candice Breitz, a artista. “Sempre que queremos convidar alguém, eles” – isso é, qualquer agência governamental que esteja financiando o evento – “pesquisam no google seus nomes ao lado de palavras como ‘B.D.S.’, ‘Israel’, ‘apartheid’. “
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Alguns anos atrás, Breitz, cuja arte reflete sobre questões de raça e identidade, e Michael Rothberg, professor titular de estudos do Holocausto na Universidade da Califórnia, Los Angeles, tentaram organizar um simpósio sobre a memória do Holocausto alemão, sob o título de “Precisamos Conversar”. Depois de meses de preparativos, eles tiveram seus financiamentos estaduais cortados, provavelmente porque o programa incluía uma mesa relacionando Auschwitz ao genocídio dos povos Herero e Nama, levado a cabo entre 1904 e 1908 pelos colonizadores alemães, no que é hoje a Namíbia. “Algumas das técnicas da Shoah foram desenvolvidas naquela época”, disse Breitz. “Mas você não tem permissão para falar sobre o colonialismo alemão e a Shoah na mesma frase, por constituir um nivelamento”.
A insistência na singularidade do Holocausto e na centralidade do compromisso da Alemanha são dois lados da mesma moeda: eles posicionam o Holocausto como um evento que os alemães devem sempre lembrar e comentar, mas não precisam temer sua repetição, por ser diferente de qualquer outra coisa que já aconteceu ou acontecerá. A historiadora alemã Stefanie Schüler-Springorum, que dirige o Centro de Pesquisa sobre Antissemitismo, em Berlim, argumentou que a Alemanha unificada transformou o acerto de contas com o Holocausto em sua ideia nacional e, por isso, “qualquer tentativa em avançar nossa compreensão do próprio evento histórico, através de comparações com outros crimes alemães ou outros genocídios, pode e está sendo visto como um ataque à base deste novo estado-nação”. Talvez seja esse o significado de “Nunca mais é agora”.
Alguns dos grandes pensadores judeus que sobreviveram ao Holocausto passaram o resto de suas vidas tentando dizer ao mundo que o horror, embora singular em sua forma mortal, não deveria ser visto como uma aberração. O fato de o Holocausto ter acontecido significa que ele foi – e continua sendo possível. O sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman argumentou que a natureza massiva, sistemática e eficiente do Holocausto era uma função da modernidade – mesmo sem qualquer predeterminação, alinhava-se as outras invenções do século XX. Theodor Adorno pesquisou sobre o que levava as pessoas a seguirem líderes autoritários, procurando um princípio moral que impedisse outro Auschwitz.
Em 1948, Hannah Arendt redigiu uma carta aberta, que começava dizendo: “entre os fenômenos políticos mais perturbadores de nossos tempos está o surgimento, no recém-criado Estado de Israel, do ‘Partido da Liberdade’ (Tnuat Haherut), um partido político com relação intima, em sua organização, métodos, filosofia política e apelo social aos partidos nazista e fascista.” Apenas três anos após o Holocausto, Arendt relacionava um partido israelense judeu ao Partido Nazista, ato que hoje seria uma clara violação da definição de antissemitismo da I.H.R.A. Arendt baseou sua comparação em um ataque realizado, em parte pelo Irgun, um antecessor paramilitar do Partido da Liberdade, contra o vilarejo árabe de Deir Yassin, que não estava envolvido na guerra e nem constituía um objetivo militar. Os atacantes “mataram a maioria de seus moradores – 240 homens, mulheres e crianças – alguns foram mantidos vivos para desfilarem como presos pelas ruas de Jerusalém.”
A ocasião para a carta de Arendt foi uma visita planejada aos Estados Unidos pelo líder do partido, Menachem Begin. Albert Einstein, outro judeu alemão que fugiu dos nazistas, adicionou sua assinatura. Dali a trinta anos, Begin tornava-se primeiro-ministro de Israel. Outro meio século depois, em Berlim, a filósofa Susan Neiman, dirigente de um instituto de pesquisa nomeado em homenagem ao fíisco, falou na abertura de uma conferência chamada “Sequestro da Memória: o Holocausto e a Nova Direita.” Ela sugeriu que poderia enfrentar repercussões por desafiar as maneiras como a Alemanha agora utiliza sua cultura de memória. Neiman é cidadã israelense e estudiosa de memória e da moral. Um de seus livros chama-se “Aprendendo com os Alemães: Raça e a Memória do Mal.” Nos últimos anos, segundo Neiman, essa cultura “perdeu a cabeça.”
A resolução anti-B.D.S. da Alemanha, por exemplo, teve um efeito sinistro na esfera cultural do país. A cidade de Aachen retirou um prêmio de dez mil euros que havia concedido ao artista libanês-americano Walid Raad; a cidade de Dortmund e o júri do Prêmio Nelly Sachs, de quinze mil euros, também revogaram a honra concedida à escritora britânico-paquistanesa Kamila Shamsie. O filósofo político camaronês Achille Mbembe teve sua participação em um grande festival questionada, depois que o comissário federal de antissemitismo acusou-o apoiar o B.D.S. e “relativizar o Holocausto”. (Mbembe disse que não está ligado ao movimento de boicote; o próprio festival foi cancelado por causa do covid.) O diretor do Museu Judaico de Berlim, Peter Schäfer, renunciou em 2019, suspeito de simpatizar com o B.D.S. – ele não o apoiava, de fato, mas o museu havia postado um link, no Twitter, para um artigo de jornal que incluía críticas à resolução. O gabinete de Benjamin Netanyahu também pediu a Merkel que cortasse o financiamento do museu porque, na opinião do primeiro-ministro israelense, sua exposição sobre Jerusalém dava muita atenção aos muçulmanos da cidade. (A resolução B.D.S. da Alemanha pode ser única em seu impacto, mas não em seu conteúdo: a maioria dos estados dos EUA agora têm leis que equiparam o boicote ao antissemitismo e retêm financiamento estatal de cidadãos e instituições que o respaldam).
Após o cancelamento do simpósio “Precisamos Conversar”, Breitz e Rothberg reuniram-se e propuseram outro seminário, “Ainda Precisamos Conversar”. A lista de palestrantes estava impecável. Uma entidade governamental avaliou todos e concordou em financiar o encontro. Estava agendado para o início de dezembro. Então, o Hamas atacou Israel. “Sabíamos que depois disso, todo político alemão consideraria extremamente arriscado estar ligado a um evento com palestrantes palestinos ou a palavra ‘apartheid'”, disse Breitz. Em 17 de outubro, Breitz soube que o subsídio havia sido cortado. Enquanto isso, por toda a Alemanha, a polícia reprimia atos exigindo um cessar-fogo em Gaza ou expressando apoio aos palestinos. Em vez de um fórum, Breitz e outros organizaram uma manifestação. Denominaram-na “Ainda Precisamos muito, muito, muito, Conversar”. Cerca de uma hora depois do início do encontro, policias à paisana atravessaram a multidão para confiscar um cartaz de papelão que dizia “Do Rio ao Mar, Exigimos Igualdade”. Quem o portava era uma mulher judia israelense.
A proposta “Cumprindo a Responsabilidade Histórica” está, desde então, parada no comitê. Ainda assim, a batalha performática contra o antissemitismo continuou a intensificar-se. Em novembro, o planejamento da Documenta, uma das mostras de arte mais importantes do mundo, entrou em pane depois que o jornal Süddeutsche Zeitung desenterrou uma petição que um membro do comitê organizador artístico, Ranjit Hoskote, assinou em 2019. O requerimento, protestando contra um congresso sobre sionismo e Hindutva, planejado em sua cidade natal de Hoskote, Mumbai, denunciava o sionismo como “uma ideologia racista que evoca um estado colonial de povoamento, regime de apartheid em que não-judeus têm direitos desiguais e, na prática, baseado na limpeza étnica dos palestinos.” O Süddeutsche Zeitung noticiou sob o título de “Antissemitismo”. Hoskote renunciou e o resto do comitê seguiu-o. Uma semana depois, Breitz leu em um jornal que um museu em Sarre cancelou sua exposição, programada para 2024, “diante da cobertura midiática sobre a artista, em conexão com suas declarações controversas no contexto da guerra de agressão do Hamas contra o Estado de Israel.”
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Ainda naquele mês de novembro, deixei Berlim para viajar a Kiev, atravessando, de trem, a Polônia e, em seguida, a Ucrânia. Este é um bom lugar para dizer algumas coisas sobre minha relação com a história judaica dessas terras. Muitos judeus americanos vão à Polônia para visitar o que resta, se é que resta alguma coisa, dos antigos guetos judeus, para comer comida reconstruída segundo as receitas deixadas por famílias há bastante extintas, e para fazer passeios pelo passado judaico, seus guetos e campos de concentração nazistas. Estou mais próximo dessa crônica. Cresci na União Soviética nos anos setenta, sob a sombra sempre presente do Holocausto, porque apenas parte da minha família sobreviveu, e porque a censura soviética suprimiu qualquer menção pública a eles. Quando, por volta dos nove anos, descobri que alguns criminosos de guerra nazistas ainda estavam à solta, parei de dormir. Eu imaginava um deles subindo pela nossa sacada do quinto andar para me sequestrar.
Durante os verões, nossa prima Anna e seus filhos vinham de Varsóvia nos visitar. Seus pais decidiram matar-se depois que o Gueto de Varsóvia foi incendiado. O pai de Anna atirou-se sob um trem. Sua mãe amarrou a filha de três anos na cintura com um xale e pulou em um rio. Elas foram retiradas da água por um polonês e sobreviveram à guerra, escondendo-se no campo. Eu conhecia a história, mas não podia mencioná-la. Anna era adulta quando descobriu ser sobrevivente do Holocausto. Ela demorou para contar aos próprios filhos, que tinham mais ou menos a minha idade. A primeira vez em que estive na Polônia, nos anos noventa, foi para pesquisar o destino do meu bisavô, que passou quase três anos no Gueto de Białystok, antes de ser morto em Majdanek.
As guerras de memória do Holocausto na Polônia sucederam-se em paralelo às da Alemanha. As ideias em disputa nos dois países são diferentes, mas uma característica consistente são os vínculos entre políticos de direita como um todo e o Estado de Israel. Assim como na Alemanha, os anos noventa e dois mil viram esforços ambiciosos de memorialização nacionais, assim como locais, rompendo o silêncio da fase soviética. Os poloneses construíram museus e monumentos lembrando os judeus mortos no Holocausto – metade de suas vítimas vindo da Polônia ocupada pelos nazistas – e a cultura judaica que foi perdida com eles. Então veio a reação. Coincidiu com a ascensão ao poder do partido de direita e antiliberal, Lei e Justiça, em 2015. Os poloneses agora queriam uma versão da história em que eram vítimas da ocupação nazista junto aos judeus, que teriam tentado proteger dos alemães.
Isso não refletia a verdade: os exemplos de poloneses arriscando as próprias vidas para salvar judeus, como no caso de minha prima Anna, foram de rara exepcionalidade, enquanto o oposto – comunidades inteiras ou estruturas do estado polonês pré-ocupação, como a polícia ou a prefeitura, assasinando judeus em massa – era comum. Entretanto, pesquisadores que estudaram o papel dos poloneses no Holocausto têm sido atacados. O historiador de Princeton, nascido na Polônia, Jan Tomasz Gross, foi interrogado e ameaçado de ação penal por escrever que seus conterrâneos mataram mais judeus poloneses do que os alemães. As autoridades do país perseguiram-no mesmo depois dele se aposentar. O governo pressionou Dariusz Stola, chefe da POLIN, museu inovador de Varsóvia sobre a presença judaica polonesa, a deixar seu cargo. Os historiadores Jan Grabowski e Barbara Engelking foram processados por afirmarem que o prefeito de um certo vilarejo foi colaborador durante o Holocausto.
Quando escrevi sobre o caso de Grabowski e Engleking, recebi algumas das ameaças de morte mais assustadoras de minha vida. (Recebi muitas; a maioria é esquecível.) Uma delas, enviada para um endereço de e-mail do trabalho, dizia: “Se você continuar difundindo mentiras sobre a Polônia e os poloneses, entregarei essas balas no seu corpo. Veja o anexo! Cinco delas em cada joelho, para que você não ande mais. Mas se continuar a espalhar seu ódio judeu, depositarei mais 5 balas na sua vagina. O terceiro passo você não vai perceber. Mas não se preocupe, não te visitarei na próxima semana ou em oito semanas, voltarei quando você esquecer esta mensagem, talvez em 5 anos. Você está na minha lista…” Em anexo, uma foto de duas balas brilhantes na palma da mão. O Museu Estadual Auschwitz-Birkenau, cujo chefe é nomeado pelo governo, tuitou uma denúncia ao meu artigo, assim como a conta do Congresso Judaico Mundial. Passados alguns meses, um convite para falar em uma universidade foi cancelado porque, segundo explicaram ao meu agente de palestras, sugeriram que eu poderia ser antissemita.
Ao longo das guerras de memória do Holocausto polonês, Israel manteve relações amigáveis com o país. Em 2018, Netanyahu e o primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki, emitiram uma declaração conjunta contra “ações voltadas a culpar a Polônia ou a nação polonesa, como um todo, pelos crimes cometidos pelos nazistas e seus colaboradores de diferentes nações”. O anúncio afirmava, falsamente, que “estruturas do estado polonês clandestino, supervisionadas pelo governo polonês no exílio, criaram um mecanismo de ajuda e apoio sistemático às pessoas judias”. Netanyahu construia alianças com os governos iliberais de países da Europa Central, como Polônia e Hungria, em parte para evitar que se solidifique um consenso antiocupação na União Europeia. Por isso, estava disposto a mentir sobre o Holocausto.
Todo ano, dezenas de milhares de adolescentes israelenses visitam o museu de Auschwitz, antes de se formarem no ensino médio (embora no ano passado elas tenham sido canceladas por questões de segurança, aliadas à crescente insistência do governo em apagar da narrativa o envolvimento dos poloneses no Holocausto). É uma viagem poderosa, formadora de identidade, que acontece apenas um ano ou dois antes dos jovens israelenses ingressarem no exército. Noam Chayut, um dos fundadores do Breaking the Silence, grupo de ativismo antiocupação em Israel, escreveu sobre sua própria experiência, ocorrida no final dos anos noventa: “Agora, na Polônia, como um adolescente do ensino médio, comecei a sentir pertencimento, auto-amor, poder e orgulho, e o desejo de contribuir, viver e ser forte, tão forte que ninguém jamais tentaria me machucar.”
Chayut levou esse sentimento para as Forças de Defesa de Israel (IDF), que o destacaram para a Cisjordânia ocupada. Um dia ele estava fixando notificações de confisco de propriedade. Um grupo de crianças brincava nas proximidades. Chayut deu um sorriso que imaginou ser gentil, e não ameaçador, a uma garotinha. As outras crianças sairam correndo, mas a menina permaneceu congelada, aterrorizada, até que ela também escapou. Mais tarde, quando Chayut publicou um livro sobre a transformação que esse encontro gerou, ele confessou que não sabia dizer a razão de ter sido ela, especificamente: “Afinal, também havia o menino algemado no jipe e outra garota, cuja casa da família tínhamos invadido de madrugada para levar sua mãe e sua tia. E havia crianças, centenas delas, gritando e chorando enquanto revirávamos seus quartos e suas coisas. E havia a de Jenin, cuja parede explodimos com uma carga que fez um buraco a poucos centímetros de sua cabeça. Milagrosamente, ele não ficou ferido, mas tenho certeza de que sua audição e sua mente sofreram graves danos.” Mas nos olhos daquela garota, naquele dia, Chayut viu um reflexo do mal aniquilador, do tipo que aprendeu ter existido, mas apenas entre 1933 e 1945, e só onde os nazistas atuaram. Chayut chamou seu livro de “A Garota que Roubou Meu Holocausto.”
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Peguei o trem na fronteira polonesa para Kiev. Quase trinta e quatro mil judeus foram mortos a tiros em Babyn Yar, uma gigantesca ravina nos arredores da cidade, em apenas trinta e seis horas, em setembro de 1941. Dezenas de milhares de pessoas morreram lá antes que a guerra terminasse. Isso é o que agora conhecemos como o Holocausto a tiros. Muitos dos países onde esses massacres ocorreram – os países bálticos, Belarus, Ucrânia – foram recolonizados pela União Soviética após a Segunda Guerra Mundial. Dissidentes e ativistas culturais judeus arriscaram sua liberdade para manter a memória dessas tragédias, coletar testemunhos e nomes e, quando possível, limpar e proteger os próprios locais. Com a queda da União Soviética, projetos de memorialização acompanharam os esforços para ingressar na União Europeia. “O reconhecimento do Holocausto é nosso bilhete para a Europa contemporânea”, escreveu o historiador Tony Judt em seu livro de 2005, “Pós-guerra”.
Na floresta de Rumbula, nos arredores de Riga, por exemplo, onde cerca de vinte e cinco mil judeus foram assassinados em 1941, inaugurou-se um memorial em 2002, dois anos antes da admissão da Letônia na UE. Um esforço sério para comemorar Babyn Yar consolidou-se com a revolução de 2014, que colocou a Ucrânia no caminho de aspirante à UE. Na época da invasão da Rússia à Ucrânia, em fevereiro de 2022, várias estruturas menores foram concluídas, e planos ambiciosos para um complexo museológico maior estavam em andamento. Com o ataque, a construção foi interrompida. Uma semana após o início da guerra em grande escala, um míssil russo atingiu o lado do complexo memorial, matando ao menos quatro pessoas. Desde então, alguns associados ao projeto se reorganizaram como uma equipe de investigadores de crimes de guerra.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, travou uma campanha sincera para conquistar o apoio israelense à Ucrânia. Em março de 2022, ele fez um discurso no Knesset, em que não enfatizou sua própria herança judaica, mas focou na conexão tradicional inextricável entre judeus e ucranianos. Ele fez paralelos inequívocos entre o regime de Putin e o Partido Nazista. Chegou a afirmar que oitenta anos atrás os ucranianos resgataram os judeus. (Assim como na Polônia, qualquer alegação de que tal ajuda tenha sido generalizada é falsa.) Porém, o que funcionou para o governo de direita da Polônia não deu certo para o presidente pró-europeu da Ucrânia. Israel não lhe forneceu a ajuda pela qual implorou em sua cruzada contra a Rússia, país que apoia em público o Hamas e o Hezbollah.
Ainda assim, antes e depois do 7 de outubro, a frase que imagino ter mais ouvido na Ucrânia foi “Precisamos ser como Israel.” Políticos, jornalistas, intelectuais e ucranianos comuns identificam-se com a história que Israel conta sobre si mesma, a de uma ilha minúscula, mas poderosa, de democracia, resistindo firme contra inimigos que a cercam. Alguns expoentes de esquerda argumentaram que a Ucrânia, que está lutando uma guerra anticolonial contra uma potência ocupante, deveria ver seu reflexo na Palestina, não em Israel. Essas vozes são marginais e, na maioria das vezes, pertencem a jovens ucranianos que estão ou estudaram no exterior. Após o ataque do Hamas, Zelensky queria correr para Israel para demonstrar apoio e união entre aquele país e a Ucrânia. As autoridades israelenses parecem ter tido outras ideias – e a visita não aconteceu.
Enquanto a Ucrânia tentava, sem sucesso, fazer Israel reconhecer que a invasão da Rússia assemelha-se à agressão genocida da Alemanha nazista, Moscou construiu um universo de propaganda para retratar o governo de Zelensky, o exército ucraniano e seu povo, como nazistas. A Segunda Guerra Mundial é o evento central do mito histórico da Rússia. Durante o reino de Vladimir Putin, à medida em que os últimos sobreviventes do confronto foram morrendo, as celebrações públicas transformaram-se em paradas carnavalescas de vitimismo russo. A URSS perdeu pelo menos vinte e sete milhões de pessoas naquele conflito, um número desproporcional deles, ucranianos. A União Soviética e a Rússia lutaram em conflagrações armadas de forma quase continua desde 1945, mas a palavra “guerra” ainda é sinônimo da Segunda Guerra Mundial, e o termo “inimigo” é usado de forma intercambiável com “fascista” e “nazista”. Isso tornou bem mais fácil para Putin, ao declarar uma nova guerra, rotular os ucranianos de nazistas.
Netanyahu comparou os assassinatos do Hamas, no festival de música, ao Holocausto a tiros. Essa colocação, captada e redistribuída por líderes mundiais, incluindo o presidente Biden, serve como reforço ao caso de Israel para infligir punição coletiva aos moradores de Gaza. Da mesma forma, quando Putin diz “nazista” ou “fascista”, ele quer dizer que o governo ucraniano é tão perigoso, que a Rússia acha-se justificada em bombardear e sitiar cidades ucranianas e matar sua população civil. Existem diferenças significativas, é claro: as alegações da Rússia de que a Ucrânia a atacou primeiro e as representações do governo ucraniano como fascista são falsas; o Hamas, por outro lado, é um poder tirânico, que atacou Israel e cometeu atrocidades que ainda não conseguimos compreender ao todo. Mas essas diferenças importam quando a retaliação envolve matar crianças?
Nas primeiras semanas da invasão em larga escala da Rússia à Ucrânia, quando suas tropas ocupavam os subúrbios ocidentais da capital, o diretor do museu da Segunda Guerra Mundial de Kiev, Yurii Savchuk, estava residindo ali para repensar a exposição principal. Um dia depois que as forças armadas ucranianas expulsaram os russos da região, ele encontrou-se com o comandante-em-chefe das forças armadas ucranianas, Valerii Zaluzhnyi, e obteve permissão para a coleta de artefatos. Savchuk e sua equipe foram a Bucha, Irpin, e outras cidades que acabavam de ser “desocupadas”, como os ucranianos diziam agora, entrevistando testemunhas que ainda não haviam contado suas versões. “Isso foi antes das exumações e dos reenterros”, disse Savchuk. “Vimos o verdadeiro rosto da guerra, com todas as suas emoções. O medo, o terror, estavam na atmosfera, que nós absorvíamos com o ar.”
Em maio de 2022, o museu abriu uma nova exposição, intitulada “Ucrânia – Crucificação”. Começa mostrando as botas de soldados russos, que a equipe de Savchuk havia recolhido. É uma reversão estranha: tanto o museu de Auschwitz, quanto o do Holocausto em Washington, D.C., exibiram centenas ou milhares de sapatos que pertenciam a vítimas do Holocausto. Eles transmitem a escala da perda, mesmo que mostrem apenas uma pequena fração. A exposição em Kiev revela a magnitude da ameaça. As botas estão dispostas no chão do museu, no padrão de uma estrela de cinco pontas, o símbolo do Exército Vermelho, que se tornou tão sinistro na Ucrânia quanto a suástica. Em setembro, Kiev removeu estrelas de cinco pontas de um monumento à Segunda Guerra Mundial, na antiga Praça da Vitória — renomeada porque a palavra conota a celebração da Rússia naquilo que ainda chama de Grande Guerra Patriótica. A cidade também mudou as datas no monumento, de “1941-1945” — os anos da guerra entre a União Soviética e a Alemanha — para “1939-1945”. Corrigindo a memória de um monumento por vez.
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Em 1954, um tribunal israelense julgou um caso de difamação envolvendo um judeu húngaro chamado Israel Kastner. Uma década antes, quando a Alemanha ocupava a Hungria e tentava implementar com pressa o assassinato em massa de seus judeus, Kastner, enquanto líder da comunidade judaica, entrou em negociações com o próprio Adolf Eichmann. Ele propôs comprar as vidas dos judeus da Hungria por dez mil caminhões. Quando deu errado, ele negociou para salvar mil seiscentos e oitenta e cinco pessoas, transportando-as de trem fretado para a Suíça. Centenas de milhares de outros judeus húngaros foram embarcados em trens para campos de extermínio. Um sobrevivente judeu húngaro havia acusado Kastner, em público, de ter colaborado com os alemães. Kastner processou-o por difamação e, na prática, acabou no banco dos réus. O juiz concluiu que ele tinha “vendido sua alma ao diabo”.
A denúncia de colaboração contra Kastner baseou-se na alegação de que ele não havia revelado viajantes que eles rumavam para sua morte. Seus detratores argumentaram que, se ele tivesse alertado os deportados, eles teriam se rebelado, e não ido para os campos de extermínio como ovelhas para o abate. O julgamento foi lido como o início de um impasse discursivo, em que a direita israelense pregava a violência preventiva, enxergando a esquerda como deliberadamente indefesa. Na época do julgamento, Kastner era um político de esquerda; seu denunciante, um ativista de direita.
Sete anos depois, o juiz que presidiu a audiência por difamação de Kastner, foi um dos três árbitros do julgamento de Adolf Eichmann. Aqui estava o próprio demônio. A acusação argumentou que Eichmann representava apenas uma literação da ameaça eterna aos judeus. O processo ajudou a solidificar a narrativa de que, para evitar a aniquilação, os judeus precisariam estar preparados para usar a força preventiva. Arendt, ao relatar o ocorrido, não aceitou essa ideia. Sua frase, “a banalidade do mal,” suscitou talvez as queixas originais, dirigidas a um judeu, por trivializar o Holocausto. Ela não. Mas ela viu que Eichmann não era um diabo, quem sabe o diabo nem existisse. Ela raciocinou que não havia tal coisa como mal radical, que o mal sempre era comum, mesmo quando extremo — algo “nascido na sarjeta”, como ela mesma afirmou mais tarde, algo de “profunda superficialidade”.
Arendt também contestou a narrativa da acusação de que os judeus eram vítimas de, como ela colocou, “um princípio histórico que se estende do Faraó a Hamã — vítima de um princípio metafísico”. Esse relato, enraizado na lenda bíblica de Amaleque, um povo do deserto de Negev que lutou diversas vezes com os antigos israelitas, sustenta que cada geração de judeus enfrenta seu próprio Amaleque. Ouvi essa lenda quando era adolescente; foi a primeira lição da Torá que recebi, ensinada por um rabino que reunia as crianças nos subúrbios de Roma, onde viviam refugiados da União Soviética, enquanto esperavam seus documentos para entrarem nos Estados Unidos, Canadá ou Austrália. Nessa saga, como contada pelo promotor no julgamento de Eichmann, o Holocausto é um evento predeterminado, parte da história judaica — e apenas da judaica. Os judeus, nesta versão, sempre têm um medo bem justificado de aniquilação. De fato, só podem sobreviver se agirem como se o extermínio fosse iminente.
Quando escutei pela primeira vez a fábula de Amaleque, ela me fez todo sentido. Descrevia o mundo que conhecia; ajudou a conectar minhas experiências atravessando agressões e espancamentos, com as advertências de minha bisavó – de que usar em público expressões de yídich aprendidas em casa era perigoso -, e com a injustiça incomensurável de meu avô e bisavô, entre dezenas de outros familiares, terem sido mortos antes de eu nascer. Tinha catorze anos e uma vida solitária. Sabia que eu e minha família éramos mártires, e a lenda de Amaleque absorveu meu senso de vitimização produzindo significados e um senso de comunidade.
Netanyahu tem agitado sobre Amaleque na esteira do ataque do Hamas. A lógica dessa lenda, como ele a manipula — de que os judeus ocupam um lugar singular na história e têm uma reivindicação exclusiva à vitimização — fortaleceu a burocracia anti-antissemita na Alemanha, e a aliança profana entre Israel e a extrema direita europeia. Mas nenhuma nação é apenas vítima o tempo todo ou executora o tempo todo. Assim como grande parte da reivindicação de impunidade de Israel reside no status de mártir perpétuo, muitos críticos do país têm tentado justificar o ato de terrorismo do Hamas como uma resposta previsível à opressão de Israel contra os palestinos. De forma inversa, aos olhos dos apoiadores de Israel, os palestinos em Gaza não podem ser vítimas porque o Hamas atacou Israel primeiro. A luta por uma reivindicação legítima de vitimização segue para sempre.
Nos últimos dezessete anos, Gaza tem sido um complexo superpovoado, empobrecido e cercado por muros, do qual apenas uma pequena fração da população tinha o direito de sair, mesmo que por poucas horas – em outras palavras, um gueto. Não como o gueto judeu em Veneza ou um gueto urbano nos Estados Unidos, mas como um gueto judeu em um país da Europa Oriental, ocupado pela Alemanha nazista. Nos dois meses desde a investida do Hamas contra Israel, toda a população de Gaza sofre com o incessante ataque das forças israelenses. Milhares pereceram. Em média, uma criança é morta ali a cada dez minutos. Bombas israelenses atingiram hospitais, maternidades e ambulâncias. Oito em cada dez palestinos de Gaza agora estão sem-teto, movendo-se de um lugar para outro, nunca capazes de chegar a um porto seguro.
O termo “prisão ao ar livre” parece ter sido cunhado em 2010 por David Cameron, o então primeiro-ministro britânico. Diversas organizações de direitos humanos que documentam as condições em Gaza adotaram essa descrição. Mas como nos guetos judeus da Europa ocupada, não há carceireiros – Gaza não é policiada pela força ocupante, mas por um ente local. É de se presumir que o termo mais adequado, “gueto”, teria sido criticado por comparar a situação dos palestinos sitiados em Gaza à dos judeus enclausurados. Também nos forneceria a linguagem para descrever o que ocorre em Gaza agora. O gueto está sendo liquidado.
Os nazistas afirmavam que os guetos eram necessários para proteger os não-judeus das doenças espalhadas pelos últimos. Israel afirmou que o isolamento de Gaza, assim como o muro na Cisjordânia, é imprescindível para defender os israelenses de ataques terroristas realizados por palestinos. A alegação nazista não tinha base na realidade, enquanto a alegação israelense decorre de atos de violência reais e repetidos. Essas são diferenças essenciais. No entanto, ambos os argumentos propõem que uma autoridade ocupante pode escolher isolar, jogar na miséria – e agora, colocar sob risco de morticino – uma população inteira em nome dos próprios interesses.
Desde os primeiros dias da fundação de Israel, a comparação dos palestinos transpostos com os judeus deslocados foi enunciada, apenas para ser rejeitada. Em 1948, o ano em que o Estado foi criado, um artigo no jornal israelense Maariv descreveu as condições precárias – “idosos tão fracos que estavam à beira da morte”; “um menino com duas pernas paralisadas”; “outro cujas mãos foram decepadas” – nas quais os palestinos, na maioria mulheres e crianças, deixaram a aldeia de Tantura após sua ocupação pelas tropas israelenses: “Uma mulher carregava seu filho em um braço e com a outra mão segurava sua mãe idosa. Ela não conseguia acompanhar o ritmo, gritava e implorava para ir mais devagar, mas a filha não aceitava. Por fim, a idosa desabou na estrada sem conseguir se mover. A filha arrancava os próprios cabelos … para ao menos chegar a tempo. E pior foi isso ser associado às mães e avós judias que ficavam para trás dessa maneira nas estradas sob o domínio dos assassinos.” O jornalista se corrigiu. “Obviamente, não há espaço para tal comparação”, escreveu. “Este destino – eles mesmos o trouxeram sobre si.”
Os judeus pegaram em armas em 1948 para reivindicar a terra que lhes foi oferecida por uma decisão das Nações Unidas, de partir o que havia sido a Palestina controlada pelos britânicos. Os palestinos, apoiados pelos estados árabes vizinhos, não aceitaram a divisão e a declaração de independência de Israel. Egito, Síria, Iraque, Líbano e Transjordânia invadiram o protoestado israelense, iniciando o que Israel agora chama de Guerra da Independência. Centenas de milhares de palestinos fugiram dos combates. Aqueles que não o fizeram foram expulsos de suas aldeias pelas forças israelenses. A maioria deles nunca pôde retornar. Os palestinos lembram 1948 como a Nakba, uma palavra que significa “catástrofe” em árabe, assim como Shoah significa “catástrofe” em hebraico. O fato da comparação ser inevitável levou numerosos israelenses a afirmar que, ao contrário dos judeus, os palestinos trouxeram sua própria catástrofe sobre si.
No dia em que cheguei a Kiev, alguém me entregou um livro grosso. Era o primeiro estudo acadêmico de Stepan Bandera a ser publicado na Ucrânia. Bandera é um herói ucraniano: ele lutou contra o regime soviético; dezenas de monumentos surgiram em sua homenagem desde o colapso da U.R.S.S. Ele acabou na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, liderou um movimento guerrilheiro do exílio, morrendo envenenado por um agente da K.G.B., em 1959. Bandera também era um fascista convicto, um ideólogo que queria construir um regime totalitário. Esses fatos são detalhados no livro, que vendeu cerca de duzentas cópias, pois diversas livrarias se recusaram a comercializá-lo. A Rússia faz uso fácil do culto a Bandera como evidência de que a Ucrânia é um estado nazista. Os ucranianos, na maioria das vezes, respondem destorcendo o legado de Bandera. É muito difícil para as pessoas aceitarem a ideia de que alguém poderia ter sido o inimigo do seu inimigo e, ainda assim, não uma força benevolente. Uma vítima e também um algoz. Ou vice-versa.