Contrabando Editorial

Por Javier Sethness e Dan Fischer

Traduzido por Carolina Freitas

O amplo estudo do acadêmico suíço-sírio marxista Joseph Daher, Síria Depois do Levante, representa uma importante contribuição para a nossa compreensão política e histórica da Revolução Síria. O livro se dedica a investigar a resiliência do regime de Bashar al-Assad diante de uma revolução popular que começou em março de 2011, como parte dos levantes que se espalharam por grande parte do Oriente Médio e Norte da África (MENA), iniciados na Tunísia, em dezembro de 2010.

Apesar de rejeitado pela vasta maioria do povo sírio e de seus modelos inspiradores de auto-organização nesta luta, Assad conseguiu sobreviver e, alarmantemente, prevalecer na reconquista de grande parte do país, mobilizando seus apoiadores domésticos e contando com significativo apoio militar e financeiro estrangeiro da Rússia, Irã e Hezbollah, entre outros. Em um paralelo marcante com a análise de Franz Neumann sobre as bases do nazismo – o exército, a burocracia estatal e os industriais –, Daher identifica a burguesia síria, as forças militares e de segurança, e figuras religiosas leais, combinadas com a aceitação passiva de funcionários públicos, como os principais pilares de apoio ao regime de Assad. Essa confluência ampla entre burguesia e burocracia sob um único partido pode explicar por que o oficial nazista arrependido Alois Brunner encontrou emprego como conselheiro da dinastia Assad, ajudando o regime a implementar métodos da Gestapo, e por que neonazistas defendem com avidez esse regime nos dias de hoje.

Até hoje, desde o início dos protestos na cidade meridional de Dera’a em março de 2011, espalhando-se, pouco depois, por todo o país – incluindo regiões curdas –, o regime de Assad recorreu com força ao modelo de terror de Estado conhecido como “modelo Hama”. Este manual notável leva o nome do massacre de milhares de civis pelo Estado em 1982, como retaliação contra um suposto levante da Irmandade Muçulmana. Os protestos civis e as populações civis fora da região nordeste do país têm sido os principais alvos do eixo do regime, como revela o destino deplorável de milhões de civis em Idlib. Além disso, o declínio da Revolução reflete também um esforço internacional e regional sustentado, por parte de potências imperialistas, para “estabilizar a Síria sob o domínio de Assad” e “encerrar o levante na Síria”.

Fica evidente como a esmagadora derrota da tentativa corajosa do povo sírio de derrubar Assad reflete os imperativos brutais não apenas do neoliberalismo internacional, mas também da ordem racial-capitalista que, como argumenta Cedric Robinson, mantém e moderniza formas feudais de exploração, mobilizando o racismo, o imperialismo e o genocídio. Portanto, as potências mundiais em geral não incentivaram processos de democratização, direitos humanos e autoemancipação para os sírios. Pelo contrário, abordaram o conflito através de lentes orientalistas, islamofóbicas, antiárabes e, muitas vezes, anticurda. Daher escreve: “Houve uma tendência global geral voltada para liquidar o levante sírio em nome da chamada guerra ao terror”. Contrariando a desinformação disseminada por muitos autoproclamados esquerdistas ocidentais ao longo dos anos, o autor mostra em detalhes como o povo sírio enfrentou três contrarrevoluções: uma pelo regime de Assad; outra pelas forças armadas salafistas-jihadistas ultrarreacionárias que passaram a dominar a luta militar contra Assad; e uma terceira pelo imperialismo regional e global.

Na região nordeste da Síria, conhecida como Rojava ou Federação Democrática do Norte da Síria (DFNS), Daher não vê o Partido da União Democrática (PYD) como marionete do regime de Assad, mas como tendo feito um acordo tácito “mutuamente benéfico” com Bashar em julho de 2012: que a maioria das forças do regime se retirassem, transferindo poder para o PYD, para reprimir as forças de oposição no restante da Síria. Embora o PYD e as Forças Democráticas Sírias (SDF) tenham, por vezes, colaborado e discordado do regime, é inegável que as SDF e o PYD, junto com a população civil da região, suportaram o peso da segunda contrarrevolução da Síria. As notícias mais recentes, no entanto, sugeriram a alguns observadores que o PYD se uniu à contrarrevolução de Assad, uma acusação que o PYD nega comveemência.

Nesta análise, examinaremos o enquadramento de Daher sobre as três contrarrevoluções da Síria, focando nas duas últimas. Isso não significa, é claro, que minimizamos a profundidade tenebrosa e assustadora da guerra contrainsurgente de Assad, que envolveu o eixo do regime matando a maioria das mais de 500.000 vítimas humanas (incluindo cerca de 92% dos civis), utilizando supostas armas químicasmais de trezentas vezes, e tornando 12 milhões de pessoas (metade do país) desabrigadas. Em vez disso, buscamos examinar as contribuições originais de Daher, que incluem a contextualização da Revolução Síria e de suas várias contrarrevoluções dentro de uma história mais ampla do neoliberalismo global, e considerar a tensão entre, de um lado, a defesa de Daher de uma liderança centralizada geral, de outro lado, suas críticas justificadas às lideranças centralizadas específicas no PYD e no Conselho Nacional Sírio (CNS) anti-Assad. Apesar de inúmeras falhas na liderança da oposição, incluindo sua desastrosa oposição à autonomia curda, a Revolução Síria permanece permanente e, ao menos, tão resiliente quanto o regime que contesta.

As Falhas da Oposição

Como causas centrais de longo prazo para as insurreições populares da Síria, Daher identifica a década de políticas neoliberais aceleradas após a ascensão de Assad ao poder em 2000. Ao acolher a intervenção do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional na Síria e permitir que o setor privado controlasse cerca de 65% da economia, o regime supervisionou uma situação em que, em 2007, um terço da população vivia abaixo da linha oficial de pobreza e outros 30% estavam logo acima desse nível. Como em muitas outras economias neoliberais, a liberalização econômica dependia de padrões conhecidos de violência estatal brutal e de uma gritante “ausência de democracia”.

Daher traça a degradação dos valores iniciais da Revolução Síria — de inclusão, igualitarismo e pluralismo —, encarnados pelos manifestantes, reformistas e revolucionários que protestavam contra o regime e fundaram centenas de Comitês de Coordenação Local (LCCs) e conselhos locais. Esses valores foram corroídos pela crescente hegemonia de grupos armados islamistas e salafistas-jihadistas no movimento oposicionista, após sua militarização em resposta à violência implacável do regime. No entanto, esse processo de solidificação de rebeldes reacionários não foi inevitável, mas sim um objetivo consciente buscado pelo regime de Assad: corromper o movimento de protesto e os LCCs, com os quais não podia competir em termos de ideias ou mensagem, ao “libertar” salafistas-jihadistas e membros da Irmandade Muçulmana (Ikhwan) de Sednaya e outras prisões em março e maio de 2011 — no mesmo momento em que as forças de segurança dizimavam manifestantes civis.

Essa “estratégia de tensão”, referindo-se à provocação intencional de violência insurgente por parte do Estado, é bem conhecida, com precedentes no Império Czarista, na Itália pós-fascista e, em particular, nos Estados Unidos sob Trump. No caso da Síria, é evidente que o eixo do regime de Assad utilizou salafistas-jihadistas, incluindo o Estado Islâmico/Da’esh (IS), para enquadrar em sua propaganda o complexo conflito multipartidário como uma luta binária entre o regime e uma reação islamista apoiada por estrangeiros. No entanto, esse processo também envolveu Assad recrutando forças estrangeiras adicionais para intervir na guerra em seu interesse. O fato de o regime e as forças aéreas russas terem mirado de forma sistemática primeiro os rebeldes antes do Estado Islâmico — ao contrário do que afirmavam os meios de comunicação estatais — é consistente com essa realidade. A colaboração de Assad com o IS também incluiu a compra de petróleo do IS e até um período de seis meses em que engenheiros do regime trabalharam em campos de petróleo controlados pelo IS em Deir Ezzor (Hensman).

A Revolução Síria expressou dimensões profundamente afirmativas, humanistas e (na terminologia freudiano-marcusiana) até mesmo eróticas, já que a mensagem dos sírios livres foi não sectária, igualitária e inclusiva. Ainda assim, a oposição anti-Assad nem sempre manteve uma negação dialética hegeliana determinada pela brutalidade do regime. Em vez disso, a oposição oficial teve inúmeras falhas. Daher acusa o Conselho Nacional Sírio (CNS) e a Coalizão Nacional de Forças Revolucionárias e de Oposição Sírias (Coalizão) de serem liderados pela Irmandade Muçulmana (Ikhwan), entre outros sectários, e de avançarem nada mais do que um programa econômico restringido ao capitalismo favorecendo proprietários de terras e a burguesia em detrimento de trabalhadores e camponeses.

Daher rastreia a dominação emergente de atores sectários, misóginos, chauvinistas e pela exclusão social, além de ideologias sociais reacionárias no seio da oposição armada. Por exemplo, a fundação do grupo rebelde reacionário Jaysh al-Islam foi “engenhada” pela inteligência saudita, enquanto seu aliado Ahrar al-Sham, apoiado pela Turquia e Qatar, simpatiza com o projeto social do Talibã. Mesmo apartados do Da’esh, muitos rebeldes anti-Assad buscavam de forma explicita um Estado Islâmico, repelindo minorias etno-religiosas da Síria, muitas mulheres e outros que simpatizavam com a causa anti-regime — sem mencionar grande parte da esquerda internacional.

Segundo Daher, a luta revolucionária e democrática perdeu força no mesmo ritmo em que o poder de islamistas e salafistas-jihadistas cresceu. O autor fornece várias razões para os sucessos desta segunda contrarrevolução (a primeira sendo de Assad). Por um lado, a falta de disposição do Ocidente para intervir de fato contra o regime, em especial após o massacre de gás sarin em Ghouta e Moadamiya, em agosto de 2013, que matou mais de mil pessoas, levou o CNS e a Coalizão a aceitarem cada vez mais lutadores fundamentalistas. Ao mesmo tempo, Estados como Arábia Saudita, Qatar e Turquia, junto com doadores privados, aproveitaram a relutância do presidente Obama em confrontar diretamente Assad para aumentar o apoio a seus grupos armados reacionários preferidos no terreno.

De fato, após o massacre de Ghouta, a rede de oposição armada conhecida como Exército Sírio Livre (FSA) perdeu credibilidade e foi superada por rivais mais bem financiados e armados. A administração Obama impôs condições estritas que bloqueavam a entrega de armas pesadas e mísseis antiaéreos ao FSA, o que exacerbou essa dinâmica, levando muitos combatentes do FSA a desertarem para grupos mais orientados ao islamismo e ao salafismo-jihadismo. Uma relação clientelista semelhante parece ter tomado conta entre o FSA e a Turquia, levando às monstruosidades conhecidas hoje como tFSA e seus afiliados, que são responsáveis por inúmeros crimes de guerra contra minorias etno-religiosas, com destaque aos curdos. Como observa Daher, a queda do Leste de Aleppo em dezembro de 2016 consolidou ainda mais o domínio da reação entre os rebeldes anti-Assad que permaneceram.

Em contraste com certos relatos de proeminentes ativistas anti-Assad, e em consonância com sua abordagem histórico-materialista, Daher não nutre ilusões sobre o caráter sociopolítico dos grupos armados anti-regime que, por meio de sua própria brutalidade e apoio de déspotas estrangeiros, superaram os outros e sobreviveram até hoje. Jabhat al-Nusra/Hayat Tahrir al-Sham (HTS), Jaysh al-Islam (JAI) e Ahrar al-Sham são, como o Da’esh, ultra-sectários de extrema direita e misóginos altamente sexistas.[1] As minorias sexuais, de gênero e etno-religiosas da Síria, sejam curdas, cristãs, alauítas, xiitas ou drusas, temem com razão esses grupos, tanto quanto temem o regime.

Daher descreve como muitas minorias sírias recordam com ansiedade o destino da comunidade cristã do Iraque, metade da qual abandonou o país após ser alvo de forças jihadistas depois da invasão anglo-americana de 2003. Ele acrescenta que os cristãos de Idlib fugiram por inteiro da cidade antes que al-Nusra e Ahrar al-Sham a “libertassem” em 2015. À medida que esse sectarismo se agravava, o destino da Revolução parecia selado, com JAI e HTS esmagando LCCs, empoderando polícias religiosas e instalando-se como exploradores capitalistas das pessoas e territórios que na teoria tinham “libertado”.

No entanto, nem esses reacionários nem os do eixo do regime de Assad conseguiram suprimir o elemento de resistência popular contínua iniciado em março de 2011. Daher destaca essa resiliência dialética persistente do “processo revolucionário de longo prazo”, que não dá sinais de desaparecer, já que “as condições que levaram ao levante ainda estão presentes”. A observação de Daher é consistente com a teoria de Karl Marx e Raya Dunayevskaya de “revolução em permanência”, que postula que uma classe trabalhadora organizada de forma independente pode continuar processos revolucionários, apesar dos sucessos ou derrotas dos democratas liberais. Dunayevskaya argumentou, em contraste com Rosa Luxemburgo, que não foi um “erro” de Marx propor esse conceito em 1850, após as derrotas esmagadoras de 1848-9, já que o “ponto mais alto de qualquer revolução” serve como “o ponto de partida para a próxima revolução” (Dunayevskaya).[2]

Antes da reconquista do regime em 2018, o Movimento das Mães organizou protestos públicos contra o encarceramento de seus filhos pelo Jaysh al-Islam em Ghouta Oriental, e os moradores de Raqqa resistiram à imposição de regras do Da’esh de inúmeras formas criativas, assim como a resistência civil fervilhava contra o domínio do HTS em várias cidades da província de Idlib por anos, até a recente queda de grande parte da região para o regime. Mesmo enquanto o eixo do regime ameaçava invadir Idlib, massas de sírios livres desafiaram tanto o regime quanto as milícias jihadistas com protestos em grande escala. Embora tais manifestações por si só não possam de forma realista parar a máquina de guerra de Assad e Putin, elas expressam as contínuas esperanças revolucionárias e otimistas do povo. Enquanto isso, novos levantessurgiram desde 2019 no Sudão, Argélia, Iraque, Líbano e Irã, com potencial para impulsionar os movimentos libertários da região.

O PYD e a Questão Curda

 

Como em outros escritos, Daher apoia a autodeterminação curda, considerando suas críticas à rejeição chauvinista da Coalizão Síria às demandas nacionais curdas e ao apoio às campanhas de guerra de Recep Tayyip Erdoğan, bem como às atitudes supremacistas de alguns combatentes e oficiais do FSA em relação aos curdos e alauítas. No entanto, ele não é um apoiador incondicional do PYD, o que o coloca em desacordo com aqueles que mitologizam Rojava. Daher delineia uma “espécie de aliança” entre o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e Hafez al-Assad, que remonta ao início dos anos 1980, quando Abdullah “Apo” Öcalan recebeu asilo do regime. Essa relação, que forneceu ao PKK bases de onde lançava incursões na Turquia, durou até o Acordo de Adana de 1998, que levou à expulsão de Öcalan e sua subsequente prisão.

Apesar dessa ruptura temporal nas relações, Daher explica como o PYD — o afiliado local sírio do PKK — se beneficiou da benevolência de Bashar e do apoio dos EUA e da Rússia após o início da Revolução. Ainda assim, secundário aos esforços empreendidos pelas Forças Democráticas Sírias (SDF) na derrota da presença territorial do Estado Islâmico, as SDF e o PYD foram abandonados por ambas as grandes potências imperialistas, nenhuma das quais está disposta a arriscar seu relacionamento com a Turquia. É evidente, então, que as SDF e as comunidades que elas protegem — muitas delas minorias etno-religiosas — foram usadas e descartadas por seus antigos patrocinadores, Trump e Putin, agora enfrentando o Estado turco hostil e seus proxies tFSA, que, ironicamente, reproduzem os preconceitos baathistas em sua agressão contra curdos e outras minorias.

Daher relata as continuidades entre a Intifada Curda de 2004, que começou em Qamishli e se espalhou para Afrin, Aleppo e Damasco, e o entusiasmado acolhimento ao levante de 2011 por parte dos manifestantes curdos em Amuda e Qamishli, que fundaram LCCs paralelas ao restante do país. Em contraste, entre os partidos políticos curdos, apenas o Movimento do Futuro Curdo e o Partido Yekiti apoiaram a Revolução anti-Assad em princípio desde o início. Por isso, o líder do primeiro, Meshaal Taimmo, foi morto, ao que tudo indica por militantes pró-Assad, em outubro de 2011 — um paralelo sombrio ao assassinato, em dezembro de 2019, da Secretária-Geral do Partido Futuro Sírio, Hevrin Khalaf, pelo Ahrar al-Sharqiya após a incursão turca ao leste do rio Eufrates.

Em julho de 2012, o regime de Assad retirou a maior parte de suas forças do nordeste da Síria para reprimir a Revolução, entregando o controle ao PYD, que então monopolizou o poder na região, bloqueou o movimento de rebeldes e seus suprimentos, e aumentou as ansiedades de Erdoğan. Assim, tanto o regime de Assad quanto o PYD ganharam, mas o povo e a causa revolucionária perderam, já que o levante foi dividido “ao longo de linhas étnicas e sectárias”. Como retaliação, a Turquia permitiu que combatentes estrangeiros cruzassem a fronteira com a Síria entre 2011 e 2014, fortalecendo formações salafistas-jihadistas, incluindo o Estado Islâmico.

Sem dúvida, o PYD, suas forças de autodefesa (as YPG e YPJ, participantes das SDF), e a população civil curda e outras minorias enfrentaram adversidades e perdas significativas desde o início da Revolução, cercados por rebeldes como JAI, al-Nusra e tFSA, que, em 2016, recusaram-se a reconhecer a autonomia declarada de Rojava, além de enfrentarem o Estado Islâmico e a Turquia. Com certeza, as ameaças representadas por esses inúmeros atores levaram os curdos a se aproximarem do PYD. Ainda assim, Daher ilustra a persistência de solidariedade não sectária na colaboração entre o FSA e o Liwa al-Thuwar (Liga dos Revolucionários) com as YPG, afiliadas ao PYD, na formação do Batalhão do Sol do Norte para defender Kobani em 2014.

Para deixar claro, isso não significa que os abusos das YPG contra apoiadores do Partido Yekiti, a conscrição forçada pelas SDF ou a repressão do PYD contraprotestos locais devam ser esquecidos, muito menos a colaboração entre YPG e o regime de Assad na conquista de Alepo Oriental em 2016, o deslocamento da comunidade de Tel Rifaat por ataques aéreos russos convocados pelas YPG, ou as vendas de petróleo e gás pelas SDF ao regime. Por mais relativamente progressista que seja o projeto de Rojava em termos de inclusão de mulheres e minorias, quando comparado às áreas do regime e dos rebeldes, o PYD perpetua aspectos do stalinismo histórico do PKK por meio de sua nomeação centralista e democrática de líderes de conselhos não eleitos em Manbij (Marcus 2009). Além disso, enquanto as comunas tão celebradas de Rojava têm poder significativo sobre questões cotidianas, as forças de segurança com frequência contornam a responsabilização comunal, e a sede do PKK nas montanhas de Qandil, no Iraque, tem ao que tudo indica a “palavra final em questões decisivas”.[3]

A atual situação difícil das SDF é, de certa forma, fruto do “acordo” tático que o PYD parece ter feito com o regime de Assad em julho de 2012, o que o comandante do PKK, Bahoz Erdal, saudou com ironia recente: “O regime deve agradecer às YPG e ao povo de Rojava.” Se tal acordo não tivesse sido feito, ou se o Movimento do Futuro Curdo ou o Partido Yekiti tivessem, de alguma forma, superado o PYD na região conhecida como Rojava/DFNS, e se as forças da oposição árabe tivessem, por sua vez, concordado em apoiar a autodeterminação curda, o destino da Revolução poderia ter sido muito diferente. Agora, com Idlib caindo e seus deslocados sofrendo e perecendo no frio do inverno, Bashar exige que as SDF se rendam diante da agressão turca.

Contrarrevolução Imperialista Regional e Global

 

A terceira contrarrevolução da Síria, liderada por imperialistas regionais e globais, se opôs tanto à Revolução quanto a aspectos da segunda contrarrevolução contra ela, a fim de salvar Assad e sustentar o funcionamento normal do capital global. Ilustrando a desumanidade fundamental do sistema interestatal, Rússia e China, como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, vetaram todas as resoluções destinadas à responsabilização pelos crimes de Assad e Putin na Síria. A Rússia usou esse poderde veto 14 vezes; a China, 8. Ambas as potências imperialistas emergentes queriam “evitar” uma repetição do “modelo Líbia” na Síria, onde um líder autoritário é deposto por intervenção estrangeira combinada com uma revolta interna, já que ambas perderiam muito em termos de poder militar, econômico e político caso Assad fosse derrubado.

A queda do regime também serviria como um precedente perigoso para Putin e Xi Jinping, em relação aos seus próprios destinos. Isso vale para a República Islâmica do Irã: daí a intervenção maciça da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC), liderada pelo falecido Qassem Soleimani, que fundou em pessoa as Forças de Defesa Nacional da Síria (NDF), treinadas por Hezbollah. De forma sombria, a Rússia vendeu bilhões de dólares em armas para Assad e tinha bilhões em investimentos privados na Síria a véspera da Revolução, enquanto o Irã gastou bilhões em sua intervenção militar para sustentar o regime, além de estender linhas de crédito a Bashar. De maneira obscena, e em paralelo à prática dos EUA e de Israel, os fabricantes de armas russos testaram e “aperfeiçoaram” mais de 300 sistemas de armas em civis sírios e rebeldes. Além disso, capitalistas russos e iranianos lucraram com a venda de recursos pelo regime, como terras, petróleo e minas de fosfato, como parte de uma suposta “liberalização” econômica que se assemelha mais a um saque neocolonial.

Daher contrasta com precisão as estratégias de Israel, dos EUA e das autocracias do Golfo em relação a Assad. Netanyahu é mostrado como tendo dito que Israel não tem problema com o regime, enquanto os EUA foram no início cautelosos em criticar os assassinatos de manifestantes pelas forças de segurança no início do levante e, de fato, não protestaram com a entrada direta da Rússia na guerra, em outubro de 2015. Em 2011, autoridades da administração Obama, como Hillary Clinton e John Kerry, chegaram a chamar Assadde “reformista” e celebraram o “progresso nesse relacionamento” entre os governos dos EUA e da Síria. Apesar do pesado investimento na Síria na véspera da Revolução, Arábia Saudita e Qatar, cujas empresas de mídia estatais também foram “cautelosas” no início, tornaram-se os principais financiadores e fornecedores dos rebeldes quando perceberam que não poderiam usar o movimento de protesto para afastar Assad do Irã, seu principal rival regional. Enquanto o governo dos EUA demonstrava pouco interesse em mobilizar-se para derrubar Assad, devido à relativa falta de petróleo da Síria e à determinação de Obama em reduzir sua presença na região, o presidente americano pediu a saída de Assad em agosto de 2011. Em 2014, o Congresso aprovou US$ 500 milhões para “treinar e equipar” combatentes rebeldes contra o Estado Islâmico (EI).

No entanto, quando os participantes do programa “Novas Forças Sírias” descobriram, em 2015, que teriam de jurar nunca usar seu treinamento ou armas contra forças do regime, três quartos desertaram do programa, e a “Divisão 30”, um grupo treinado nesse programa, foi em pouco tempo dizimada em campo por al-Nusra. Além disso, com o surgimento do EI, a estratégia executiva dos EUA tornou-se “EI primeiro”, dando a impressão de que o destino do regime vinha em segundo lugar — embora isso não fosse o caso. Tanto os termos do programa “Treinar e Equipar” quanto a constituição das SDF se concentravam com exclusividade no EI — e não em Assad. Trump apenas continuou a tendência de Obama, cancelando por inteiro o apoio aos rebeldes anti-regime em 2017. Embora não mencionado por Daher, o “acordo nuclear iraniano”, conhecido oficialmente como Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), também pode ter contribuído, considerando que Obama na prática “trocou” com o Irã a intervenção contra Assad por uma redução das tensões sobre o enriquecimento nuclear.

Ao examinar outros casos em que os EUA priorizaram seus interesses acima da segurança dos sírios, poder-se-ia acrescentar os crimes de guerra da coalizão liderada pelos EUA, denunciados pela ONU e pela Anistia Internacional, incluindo a morte de mais de 1.600 civis em Raqqa e a “destruição quase completa de cidades e vilas em torno de Hajin e Baghuz”. Além disso, a aliança de Washington com Ancara levou ao seu apoio tácito à invasão repressiva da DFNS pela Turquia e ao fechamento das fronteiras para refugiados de Idlib. Por fim, a recusa de longa data de Washington em lançar alimentos por via aérea para os sírios sob cerco do regime, citando a preocupação insensata de que os alimentos poderiam cair nas mãos de terroristas, exacerbou sem necessidade o sofrimento generalizado dos civis sírios.

De acordo com essa análise, então, o governo dos EUA carrega uma responsabilidade significativa por estabilizar o regime e desviar e suprimir a Revolução Síria.[4] Em contraste com as linhas defendidas pela candidata presidencial marginal Tulsi Gabbard e muitos “anti-imperialistas” e “esquerdistas” ocidentais autoproclamados, os EUA têm sido um inimigo da Revolução do povo sírio e um participante de sua execução em massa, ao lado da Rússia, Irã, Arábia Saudita, Qatar e Turquia, em nome da Guerra ao Terror. Essas dinâmicas desumanizadoras reduzem o povo sírio a meros peões no tabuleiro de xadrez das grandes potências, que os traem com frequência, optando por sua aniquilação política em vez do possível estabelecimento de uma democracia pluralista na Síria, considerando o perigoso precedente regional que tal exemplo poderia representar para os poderes despóticos. Que a Revolução tenha sido derrotada por um eixo militar que emprega as estratégias e táticas passadas e presentes dos imperialistas fascistas e euro-americanos comunica o contínuo sistema de opressão racial-capitalista e neoliberal global.

Tanto a burguesia doméstica quanto a regional se preparam para lucrar ao máximo com a projetada “reconstrução” neoliberal da Síria, que Bashar pretende usar para consolidar o controle político e econômico de maneira sectária e punitiva. Por exemplo, o regime promulgou o Decreto nº 66 em 2012, que permitiu a expulsão de bairros pró-oposição em Damasco, sem aparente compensação, a fim de desenvolver projetos imobiliários de alto padrão. No mesmo ano, o Decreto nº 63 codificou a apreensão de bens de refugiados políticos, duvidosamente classificados como “terroristas”. Em 2018, o Decreto nº 10 expandiu as políticas do Decreto nº 66 em escala nacional e, ao ameaçar confiscar as casas de refugiados sírios, criou novos obstáculos para seu eventual retorno.

De forma marcante, não apenas imperialistas, capitalistas e autoritários regionais e globais conspiraram para suprimir a revolução do povo sírio, assim como fascistas, imperialistas liberais e a União Soviética stalinista afogaram a Revolução Espanhola em sangue há mais de oito décadas. Em uma dinâmica perturbadora e macabra, os assassinos dos revolucionários sírios também foram efetivamente assistidos em seu projeto desumano por muitos autoproclamados revolucionários de esquerda no Ocidente, que, em vez de serem “imbuídos de idealismo revolucionário” pelo exemplo da luta popular na Síria,[5] apagaram com força esta Revolução e ficaram em silêncio ou até mesmo simpatizaram em aberto com a contrarrevolução genocida de Assad e Putin.

A Questão da Centralização

 

Uma tensão persiste entre a crítica contundente de Daher a lideranças centralizadas específicas e sua defesa geral pela centralização. Uma de nossas poucas discordâncias com a análise de Daher diz respeito à sua rejeição da descentralização revolucionária.

Além da crítica obvia ao poder concentrado do regime patrimonial de Assad, Daher oferece críticas justas e severas contra as lideranças centralizadas de grupos de oposição e curdos, incluindo o CNS, a Coalizão e o PYD. Em vez de apresentar uma alternativa não sectária ao regime de Assad, essas lideranças desenvolveram relações desastrosas com a Turquia e fundamentalistas islâmicos nos dois primeiros casos, e com os Estados Unidos e o eixo Rússia-Assad no último. Daher descreve com frequência o “fracasso” da oposição árabe e das “políticas autoritárias e repressivas” dentro do PYD, levando um leitor atento a questionar se a liderança centralizada não seria parte intrínseca do problema.

No entanto, Daher lamenta: “O movimento de protesto sofreu com algumas limitações. Nenhuma liderança unida o representava, e, em vez disso, comitês de coordenação e organizações juvenis foram formados.” Ele cita um estudo de ativistas não violentos que conclui que a liderança unificada teria “evitado que o movimento se fragmentasse”.

Parece-nos, entretanto, que, assim como lideranças centralizadas e não responsáveis facilitaram o sectarismo e o fundamentalismo, os maiores sucessos ocorreram em níveis descentralizados e de base. Daher descreve como os comitês de coordenação locais e os conselhos locais “tentaram alcançar uma situação próxima ao duplo poder”. Essa situação foi a norma durante 2011 e 2012, e a Síria ainda tinha 395 conselhos locais autogovernados em março de 2016, cerca de metade deles eleitos em vez de indicados. Esses conselhos muitas vezes tinham resiliência notável, mesmo enfrentando repressões no modelo Hama, e em 2017 realizaram a primeira eleição livre de Idlib desde 1954.

No entanto, Daher critica com precisão os conselhos por apresentarem níveis muito baixos de participação de mulheres e de pessoas sem educação universitária. Enquanto isso, na DFNS, o sistema paralelo de conselhos, que apresentava níveis muito mais altos de participação feminina, tornou-se o local de maior autodeterminação comunitária. Esses ganhos, embora incompletos e temporários, ecoam a percepção de Friedrich Engels, em 1885 — em paralelo ao anarquista Peter Kropotkin — de que órgãos locais descentralizados serviram como a “alavanca mais poderosa” da Revolução Francesa, levando-o a reverter parcialmente o apoio anterior de Marx à centralização estrita, considerando que era “baseada em um mal-entendido”.

Os primeiros protestos descentralizados foram os mais propícios para superar o sectarismo étnico. Cânticos em 2011 defendiam a solidariedade interétnica: “Sem curdos, sem árabes, o povo sírio é um só” e “Nem sunita nem alauíta, queremos liberdade”. A unidade não significava nem a rendição da autonomia local nem a aceitação de uma homogeneização cultural ou linguística, mas permaneceu compatível com um confederalismo descentralizado que refletia o “intercomunalismo revolucionário” de Huey Newton e o princípio político-ecológico de “unidade na diversidade” de Murray Bookchin. Além disso, semelhanças marcantes entre os conselhos propostos por Omar Aziz e Abdullah Öcalan proporcionavam uma possível área de comunalidade política entre árabes e curdos, uma oportunidade tragicamente ignorada pelo movimento internacional de solidariedade a Rojava.

Em contraste, tentativas de centralizar a liderança introduziram momentos de tensão étnica. Exemplos incluem quando representantes árabes, em um encontro em Istambul, em 2011, se recusaram a honrar o pedido dos curdos para defender a mudança do nome exclusivamente étnico da República Árabe Síria e quando o primeiro presidente do CNS, Burhan Ghalion, rejeitou as demandas curdas por autonomia como uma “ilusão”.

Dado que 92% dos curdos da Síria apoiam uma forma de “federalismo” (que pode incluir a teoria de confederalismo democrático do PKK), o jornalista sírio Jihad Yazigi, embora limitado por um modelo político-econômico liberal, argumenta com persuasão que “a descentralização é o futuro da Síria” e que essa descentralização não precisa envolver separatismo nem um governo baseado em etnias. A mudança oficial do nome de Rojava para DFNS irritou alguns nacionalistas curdos ligados à palavra em kurmanji para “oeste”, mas DFNS reflete melhor a população multiétnica da região.

Além da descentralização contida na prática de muitos levantes no Oriente Médio e Norte da África (MENA), incluindo a Primeira Intifada da Palestina — caracterizada por anarquistas palestinos como desafiando a OLP e envolvendo “organização horizontal, ou não hierárquica” — e a Primavera Árabe de 2011 — descrita por Mohammed Bamyeh como paradoxalmente combinando um “método anarquista e uma intenção liberal” —, a região produziu uma variedade de visões teóricas de descentralização. Há a proposta de confederalismo democrático de Abdullah Öcalan para as regiões curdas, os conselhos locais propostos por Omar Aziz para as regiões de maioria árabe da Síria, o “zapatismo judaico-palestino” proposto por Bill Templer, escritor israelense-americano, e até mesmo aspectos das cooperativas jamarrhiriyah uma vez defendidas pelo ditador líbio Muammar Gaddafi.[6] Por último, em paralelo aos chamados, entre outros, de Herbert Marcuse, os ativistas judeus e palestinos do Matzpen propuseram nos anos 60 e 70 uma confederação multiétnica decentralizada na região do Oriente Médio e Norte da África promovendo um modelo regional baseado na inclusão. Embora cada uma dessas teorias mereça uma análise bastante crítica, elas demonstram de forma coletiva uma forte presença contemporânea de teoria e prática horizontalistas na região MENA.

Daher faz pontos críticos sobre a necessidade de evitar a fragmentação, como aconteceu com o FSA, mas as teorias mencionadas sugerem que o confederalismo oferece uma alternativa viável à centralização. Afinal, se a descentralização é o objetivo, como Daher em parte concede com seus comentários sobre a autonomia curda, então também deveria ser a forma organizacional, em especial se, como Daher, reconhecermos uma forte conexão entre os meios e os fins: “Os atores dentro do CNS e da Coalizão acreditavam que os fins justificavam os meios, mas os fins são determinados pelos meios utilizados”.

Conclusão

 

Em resumo, o livro de Daher ilumina com talento as complexidades da Revolução Síria ao tratar das três contrarrevoluções perpetradas pelo regime, pelos rebeldes reacionários e pelos imperialistas regionais e globais. Dessa forma, podemos dizer que a Revolução Síria enfrentou uma luta talvez ainda mais difícil do que uma luta tripartite (um modelo usado por antifascistas anglófonos para descrever um conflito entre a esquerda revolucionária, a ordem capitalista e uma extrema direita insurgente): enfrentou a ira de tantas forças implacáveis que explica seu destino trágico.

Em paralelo ao destino da República na Guerra Civil Espanhola, os rebeldes anti-Assad seculares e democráticos foram bloqueados e privados de apoio, levando à solidificação da reação salafista-jihadista na Síria. Embora o PYD e as SDF não tenham se unido aos rebeldes, ou à República figurativa, devido em parte à mesma dinâmica de dominação ultra-sectária da oposição oficial concentrada no CNS e na Coalizão, a derrota histórica das forças seculares e democráticas prenunciou a derrota geral da Revolução (ao menos, desta vez). Enquanto o PYD/SDF demonstraram lealdade provisória ao regime de Assad e aos EUA, podem muito bem enfrentar o mesmo destino sombrio que os rebeldes, incluindo aqueles que foram forçados a se render e a “reconciliar-se“, caso o eixo do regime finalize a retomada de Idlib. Embora negado pelas SDF, relatos não confirmados de recente participação do ramo de Afrin das YPG em operações do eixo do regime para reconquistar o oeste de Alepo lembram a colaboração entre o regime e as YPG durante a reconquista de Alepo Oriental, em 2016.

Nesse sentido, o destino de Alepo reflete os fracassos da Revolução, em particular a hegemonia planejada do PYD em Rojava/DFNS, de acordo com a estratégia do regime de dividir minorias etno-religiosas da causa revolucionária. Além disso, não temos dúvida de que o CNS e a Coalizão facilitaram as segunda e terceira contrarrevoluções da Síria e, paradoxalmente, também a “vitória” pírrica do regime. No entanto, uma das graças salvadoras que podemos identificar neste momento é que a resistência popular continua inabalável, seguindo a teoria da revolução permanente. Mesmo se Idlib caísse, espera-se que os oposicionistas mudem para uma estratégia de “revolta subterrânea”. Enquanto isso, alguns rebeldes “reconciliados” transferidos pelo regime para as linhas de frente em Idlib estão desertando. Como observa Daher, o grande volume de registros digitais dos levantes de 2011 continuará sendo um “recurso crucial para aqueles que resistirem no futuro”.

Além disso, acreditamos que, caso a Revolução seja reativada, desta vez contando com o apoio externo que lhe faltou, e se as “duas metades” do levante — árabe e curda — puderem de alguma forma se unir, superando os traumas que as separam, isso poderia reverter as tendências de declínio e catástrofe, reiniciando uma luta real, regional e global para realizar os objetivos originais dos revolucionários. Como precedentes para esse desfecho mais libertador, podemos apontar o entusiasmo inicial com que a juventude curda recebeu a Revolução em 2011, a mensagem não sectária e pluralista das fases iniciais da Revolução, a afirmativa cooperação entre o FSA e as YPG na defesa de Kobani contra o EI e até mesmo os apelos feitos pelo porta-voz das SDF para que a comunidade internacional colocasse fim ao “holocausto” em Idlib.

Os levantes hoje ressurgentes em todo o Oriente Médio, Norte da África (MENA) e no resto do mundo, ao reconhecerem seus vínculos com os destinos dos sírios e curdos, podem ajudar a superar análises sectárias e campistas e coordenar a organização global contra as três contrarrevoluções na Síria e o sistema neoliberal e racial-capitalista que as anima. O estudo de Daher, instrutivo com sua combinação de crítica implacável e solidariedade consistente, merece amplo estudo e discussão.

* Originalmente publicado pela New Politics, em 16 de março de 2020

Referências

 

Dagher, Sam. 2019. Assad or We Burn the Country. New York: Little Brown and Co.

Daher, Joseph. 2019. Syria After the Uprisings: The Political Economy of State Resilience. Chicago: Haymarket Books.

Dunayevskaya, Raya. 2019. Marx’s Philosophy of Revolution in Permanence for Our Day. Ed. Franklin Dmitryev. Leiden: Brill.

Graham, Robert. 2015. We Do Not Fear Anarchy—We Invoke it. Oakland: AK Press.

Hensman, Rohini. 2018. Indefensible: Democracy, Counter-Revolution, and the Rhetoric of Anti-Imperialism. Chicago: Haymarket Books.

Marcus, Aliza. 2009. The PKK and the Kurdish Fight for Independence. New York: New York University Press.

[1] Reese Erlich, Inside Syria: The Backstory of Their Civil War and What the World Can Expect (Amherst, Massachusetts: Prometheus Books, 2014).

[2] Menos conhecido é que Pierre-Joseph Proudhon teorizou a revolução permanente de baixo para cima em meio aos levantes de 1848 — isso antes mesmo da articulação do conceito por Marx em 1850, que foi, pode se dizer, o primeiro uso claro do termo. Robert Graham escreve em We Do Not Fear Anarchy—We Invoke it (AK Press, 2015, 39): “Em outubro de 1848, [Proudhon] publicou seu ‘Brinde à Revolução’, baseado em um discurso que deu em um banquete com cerca de 2.000 pessoas, no qual falou sobre a ‘revolução permanente’. Ele argumentou que a Revolução de Fevereiro, ao proclamar a ‘predominância do trabalho sobre o capital’, só poderia ser concluída com o povo ‘atuando sobre si mesmo sem intermediários’; isto é, por meio de sua própria ação direta e não por meio de seus chamados representantes.”

 

[3] Essa relação de autonomia relativa subordinada a um comando centralizado pode encontrar um paralelo na tensão dentro do EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) entre as assembleias populares e os caracóis, por um lado, e a hierarquia de comando militar, por outro.

[4] A exclusão do programa Timber Sycamore de bilhões de dólares da CIA por parte de Daher reforça seu argumento, mas pode não convencer aqueles mais simpáticos ao regime (quaisquer que sejam as razões para tais simpatias). No entanto, ilustrando as limitações dos EUA em relação à oposição, o New York Times relata que tanto as administrações Obama quanto Trump compartilhavam “visões sombrias” do programa e que ele foi considerado “desnecessariamente cauteloso” mesmo por seus apoiadores.

[5] Parafraseando Trotsky.

[6] Que o “Pequeno Livro Verde” do Coronel Kadhafi seja aclamado sem crítica por alguns autodenominados esquerdistas ocidentais como uma visão libertadora para a sociedade — apesar de Sam Mbah e I.E. Igariwey classificarem a Líbia de Kadhafi como um “estado socialista fracassado” — é, infelizmente, consistente com o fenômeno do “assadismo de esquerda”.

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