Darryl Li
Tradução: Mateus Forli
Publicado em 29 de outubro de 2023 na revista eletrônica egípcia Mada Masr, este é o segundo de uma série de três artigos tratando do esforço histórico israelense para reexpulsar os palestinos de Gaza para o Egito.
As recentes notícias de que os Estados Unidos estão planejando criar um “corredor humanitário” para que os palestinos encurralados na sitiada e bombardeada Faixa de Gaza possam partir para o Egito têm gerado alarme. Muitos críticos temem que Israel possa aproveitar a oportunidade para efetuar expulsões em massa, de uma maneira que não se via há mais de meio século. Mesmo com o Egito rejeitando em público esse desfecho, o pedido de um financiamento emergencial de 106 bilhões de dólares, feito pela presidência de Joe Biden ao Congresso, fantasia abertamente com esse cenário.
Essas preocupações têm fundamento: a reexpulsão dos refugiados palestinos para o Egito, em particular para o Sinai, é um antigo devaneio colonial.
A existência da Faixa de Gaza reflete um paradoxo da vitória sionista em 1948. Por um lado, os colonos sionistas conseguiram retirar a maior parte da população árabe autóctone do território, dispersando-a em todas as direções. Por outro lado, nem todos os países adjacentes tinham geografias adequadas para receber grandes fluxos de palestinos. Enquanto nas frentes norte e leste os refugiados se dirigiam para as terras vizinhas, a oeste, o deserto do Sinai constituiu um impedimento natural à migração em massa de longa distância. Em vez disso, os refugiados se concentraram principalmente em uma pequena parte da Palestina histórica que permaneceu administrada pelo Egito.
A área, conhecida desde então como Faixa de Gaza, foi transformada em um dos locais mais densamente povoados do mundo e epicentro da resistência palestina.
Por esta razão, desde a ocupação das terras árabes e palestinas após a Guerra de 1967, Israel tem considerado a possibilidade de “reduzir” a densidade populacional de Gaza através de transferências para outras partes da região. Imediatamente após a guerra, Menachem Begin (então ministro do governo) propôs a transferência de palestinos para o Sinai, assim como o vice-primeiro-ministro de Israel na época, Yigal Allon. O plano mais amplo de Allon, de transferências de terras e população, que acabou sendo apresentado ao gabinete israelense como base para as discussões com a Jordânia, serviu como um documento programático para compreender a lógica demográfica e territorial subjacente às políticas sionistas das décadas seguintes.
O Plano Allon, que passou por sucessivas versões entre 1967 e 1970, previa primeiro uma anexação israelense da Faixa de Gaza. Esta anexação seria realizada por meio da transferência de centenas de milhares de palestinos de Gaza para o Sinai e a Cisjordânia, da redução da população da Faixa para “proporções controláveis” e da incorporação definitiva do reduzido território a Israel. Esse projeto se revelou fantasioso.
Embora o exército israelense tenha conquistado Gaza em apenas alguns dias, os palestinos da Faixa montaram uma das suas resistências armadas mais contínuas e generalizadas durante os cinco anos seguintes. Em resposta, o general israelense (e mais tarde primeiro-ministro) Ariel Sharon foi enviado para Gaza para levar a cabo um plano de pacificação. Entre 1971 e 1972, os militares israelenses consolidaram seu controle sobre a Faixa de Gaza, detiveram ou assassinaram centenas de guerrilheiros palestinos e deportaram milhares de civis, abrindo, ao mesmo tempo, espaço para a construção de novas colônias judaicas. Os esforços de Sharon culminaram no assassinato do líder da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), Mohamed al-Aswad. Conhecido como “Guevara de Gaza”, al-Aswad comandava as ações militares da Frente Popular na Faixa, sua morte marcando o fim da resistência armada.
A efetivação do Plano Allon, embora nunca tenha sido integral, ocorreu em menor escala na expulsão dos palestinos pelo exército israelense, descrita em detalhes no indispensável livro The Gaza Strip: The Political Economy of De-Development, de Sara Roy. Sharon demoliu milhares de casas nos campos de refugiados da Faixa de Gaza. Operou uma contrarrevolução através do planejamento urbano: tratores abriram caminho através de densas construções urbanas para alargar estradas, facilitando a circulação de soldados e veículos militares. Além disso, segundo Roy, “12.000 guerrilheiros suspeitos foram deportados para campos de detenção no deserto do Sinai”.
A vertente “humana” desta limpeza étnica envolveu a construção de habitações alternativas para os refugiados duplamente deslocados. Em 1972, algumas famílias deslocadas foram transferidas para um novo projeto habitacional no lado egípcio da fronteira sul da Faixa de Gaza. Este projeto ficou conhecido como Canada Camp, situado nas antigas instalações de um contingente canadense das Forças de Manutenção da Paz da ONU.
O programa de reassentamento e anexação delineado primeiro no plano Allon acabou sendo abandonado em meados de 1970. Nos termos do Tratado de Camp David, as famílias do Canada Camp precisavam ser autorizadas a regressar – não às suas terras originais dentro da Linha Verde [de 1948], é claro, mas ao seu primeiro local de exílio, na Faixa de Gaza. Israel protelou e relutou em permitir o regresso. Apesar da pressão internacional e dos governos estrangeiros que arcaram com os ônus, foram necessários cerca de 20 anos para que as famílias regressassem a Gaza. Ali, foram colocadas em um outro projeto habitacional – construído em formato de grade, com estradas amplas e adequadas aos tanques – na zona de Tal al-Sultan, em Rafah.
No entanto, mesmo este pequeno êxito na reversão parcial das expulsões da Palestina foi agridoce. Pouco tempo depois, explodiu a Intifada de Al-Aqsa e, em maio de 2004, o exército israelense voltou a invadir Tal al-Sultan, matando dezenas de palestinos e realizando demolições maciças de casas, desalojando dezenas de famílias pela terceira vez.
E assim a saga da expropriação perene, infligida por Israel aos palestinos em Gaza, continuou e continua até hoje.